
O presidente Lula disse literalmente que não parte do Governo a iniciativa de recriar a CPMF, atribuindo o fato à sua base no Congresso. Trata-se apenas de um jogo de palavras, pois é público e notório que os partidos que dão sustentação à sua administração no Congresso não movem um só dedo sem o aval do Planalto, ainda mais num tema de tal dimensão. Ressuscitar a contribuição, embora interesse a área econômica, é, de pronto, um desrespeito ao próprio parlamento, que já deu seu veredicto sobre a matéria. No ano passado, mesmo sob pressão, o Senado decretou o seu fim.
O argumento de que os investimentos já têm destinação certa - peça de defesa dos que apóiam a medida - é escasso, pois não avança na discussão. Quando criada, em 1992, a contribuição tinha dia e hora para acabar e um destino certo: a saúde. Com o tempo, porém, passou a ser distorcida e sua finalidade acabou passando longe da rubrica que lhe deu origem. Não seria diferente agora, a despeito de todos os números positivos da arrecadação.
O que é preciso discutir é o aumento da inflação, que já pode ser sentido no dia-a-dia. Os preços andam mais rápido do que os reajustes salariais, enquanto o Governo, paradoxalmente, amplia seus gastos de maneira desproporcional. É fato que a economia tem bastante gordura para queimar, mas não se pode dar chance ao imprevisto, sobretudo num cenário globalizado, no qual todo desequilíbrio, dentro ou fora do país, tem repercussões imediatas.
O que tem garantido ao Brasil receber classificações positivas, o que facilita o investimento estrangeiro, é exatamente a solidez de sua economia. Mas para tanto, não há espaço para experimentações, considerando que há margem para tal. A política rigorosa mantida até agora é a principal âncora desse sucesso econômico de um Governo que metia medo nos investidores. Não dá, portanto, para abusar.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista

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