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“O político tem que ser o mais ético dos cidadãos. A política é um sacerdócio, não podendo ter consciência vil, isto é, um olhar exclusivo para os interesses particulares.” A observação é do jurista Joaquim Salgado.
No entanto o que mais se vê é o patrimonialismo como marca registrada do jogo político. O que ocorre no Senado Federal e em outras instâncias - a Câmara Alta é apenas a bola da vez - é um retrocesso nas instituições, pois, a despeito das denúncias, não houve ânimo para apurá-las.
O político exerce o poder em nome do povo. É fato, mas este não foi consultado e, se fosse, certamente não aprovaria a postura adotada pelos parlamentares. Ao contrário do apelo das ruas, preferiram jogar no lixo um considerável elenco de provas materiais apontando ilícitos.
O uso da chamada tropa de choque foi um jogo inadequado da maioria que tem o poder de decisão, mas é vital que haja, no mínimo, respeito à minoria. No Congresso, nem uma coisa, nem outra. Se houvesse algum tipo de consulta, a opinião pública - dona do voto e por maioria - opinaria pelo avanço das investigações. A minoria, descartada em todas as votações, contentou-se com a liberação de um de seus parlamentares, também envolvido no mesmo enredo.
Para tentar corrigir este status quo só há um jeito: NÃO REELEJA NINGUÉM.
Como já era esperado, o Conselho de Ética rejeitou todos os recursos contra a recente decisão da Mesa, que arquivou os 11 pedidos de investigação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), por quebra de decoro parlamentar. O rolo compressor da base governista, por 9 a 6 votos, encerrou a discussão. É certo que haverá recurso ao plenário, como a oposição já anunciou, mas tal articulação serve apenas para manter a hemorragia que afeta a Casa e chega às ruas. A pizza saiu do forno.
Desde o início das discussões e, principalmente, depois da intervenção do Governo, já se conhecia o fim da novela, mas enganam-se os que consideram que não haverá repercussão. O povo pode até esquecer, como apontam os analistas - (*))veja nota abaixo -, mas não está esgotada a pressão. Com o passar dos dias, as preliminares eleitorais vão ganhar ênfase, trazendo consigo as mazelas que afetam o Congresso Nacional. Em suma, o jogo ainda não acabou.
E o que surpreende, além de tudo, é o modo como os senadores estão agindo, a despeito da experiência política que acumularam até chegarem à Câmara Alta. Na terça-feira, governistas e oposição, ainda embalados pela sessão em que a ex-secretária da Receita Lina Vieira confirmou ter se encontrado com a ministra Dilma Rousseff, viveram momentos de circo quando passaram a se classificar mutuamente de Forças Armadas da Dilma e Grupo de Assalto do Serra. Entre uma Vossa Excelência e outra, o nível continuou caindo.
A situação não é inusitada, mas fica claro que está faltando alguém de bom-senso para colocar ordem na Casa. O essencial, que são as votações, está ficando em último plano, enquanto as ofensas soam como um prenúncio do que virá quando, de fato, a disputa presidencial chegar às ruas.
(*) Nota
A crise no Senado, que não acaba nunca, a cada dia surgindo fatos novos, não deverá, apesar disso, ter peso na campanha do ano que vem. O cientista político Gilberto Barbosa Salgado, da UFJF, disse que ela deverá ser pouco lembrada no próximo pleito, mas produzirá muito conteúdo para o marketing político das campanhas majoritárias de oposição e até mesmo de aliados. Nas ruas, ela terá efeito não desprezível nas campanhas proporcionais, refletindo-se no aumento das abstenções e dos votos em branco e nulos, que já crescem residualmente. Gilberto faz parte do grupo de analistas que acha estranho o comportamento da Câmara dos Deputados, que, na sua opinião, “está quietinha demais”. Os deputados, no seu entendimento, deveriam reagir à crise do Senado, pois sempre há o risco de contaminação na opinião pública.
O plenário do Conselho de Ética do Senado, a quem caberá julgar os recursos pelo arquivamento de 13 representações contra o presidente do Congresso, José Sarney, e uma contra o líder do PSDB, Arthur Virgílio - definido ontem pelo relator Paulo Duque -, terá que apresentar uma postura convincente à opinião pública, sob o risco de vender a imagem de que foi assada uma grande pizza na Câmara Alta. Depois de duas semanas de fogo alto, o relator do Conselho considerou que tudo o que foi dito até agora não passou de marola, não havendo motivo para investigação.
Trata-se de um escárnio, pois não foram simples discursos que causaram a pior crise da instituição. Foram provas materiais que demonstraram que o patrimonialismo é uma rotina no Parlamento, envolvendo a base do Governo e a oposição. Com isso, a denúncia de que houve um grande acordo ganha força, a despeito dos desmentidos apresentados pelas lideranças. A redução da temperatura, resultado de reuniões entre os dois segmentos, já foi um indício de que havia mudanças de rumos na discussão.
Não se trata de defender o fogo no circo, mas é necessário considerar que a opinião pública não pode engolir uma solução tão trágica, ao gosto de corporativismo, sobretudo por fugir das investigações. O mínimo que tem que ser feito é apurar os fatos, pois é dessa maneira que se tiram dúvidas. O senador Paulo Duque, do alto de sua autoridade de suplente do suplente, não poderia virar as costas para o eleitor, embora dele não tenha dependido para chegar a Brasília.
O mandato que ora ocupa, mesmo sem o aval das ruas, é símbolo de uma procuração para representar a cidadania. Quando age movido pelos interesses internos, amplia ainda mais o fosso entre a sociedade e o Congresso. O que não é bom para a democracia.