
A retomada de aumentos mensais da Selic é medida equivocada para mitigar a majoração dos preços agrícolas. Afinal, como sabe qualquer estudante de economia, juros altos são eficazes apenas para conter a inflação de demanda, mas jamais à de custos. Como é esta última a que se manifesta no Brasil, corremos o risco de diminuir o nível de expansão do PIB sem conseguir domá-la, unindo o inútil ao desagradável. No ICV, alguns subgrupos tiveram comportamentos análogos aos duros anos pré-Plano Real, quando a inflação era aquela criatura bizarra de dois ou mais dígitos. Produtos in natura e semi-elaborados sofreram reajustes muito altos, como feijão (105,14%), berinjela (43,58%), tomate (36,83%), arroz (34,30%), mamão (31,57%), carne bovina (25,44%) e leite (23,18%). Os itens da indústria alimentícia subiram 10,13%. Por mais que no plano mundial atribua-se a majoração do alimento a um fenômeno de demanda (o grande aumento do consumo na China e Índia) e à produção de etanol de milho nos EUA, não se trata do caso brasileiro. Aqui, precedem-se como causas, além de um fator conjuntural ligado aos preços em ascensão de insumos como os fertilizantes, energia e combustíveis, questões estruturais que sempre oneraram a produção. Ou seja, estamos falando de custos.A verdade é que o Governo federal deveria ter política eficaz para incentivar a produção de alimentos. Não basta fomentar o biodiesel, com discutível subsídio. O Brasil, que tem terras suficientes para produzir energia de fontes renováveis e alimentos, precisa conciliar as duas vertentes.Por fim, há o grave problema da infra-estrutura que prejudica produtores e onera exportações mais do que as barreiras externas dos subsídios, quotas e sobretaxas. Segundo estudo da entidade, de 2006, transporte e logística foram responsáveis por 70% do aumento dos custos do setor, nas cinco safras anteriores àquele ano. A situação não mudou. Desse modo, é impreterível a implementação de eficiente política agropecuária e para a produção de alimentos. Se o Brasil continuar confundindo custo com demanda e ignorando os problemas do campo, seguirá adotando soluções irreais para causas inexistentes, e ficção pode até alimentar o intelecto, mas não enche a barriga...
Editou: M. J. Ranieri, jornalista (MT nº 2502 de 1975)





















