skip to main |
skip to sidebar

Podem ser fatos casuais, mas a semana termina sob o signo do confronto entre líderes e liderados do processo político, com trocas de acusações que passam longe dos temas próprios de campanha. De um lado, o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, diz que o candidato José Serra terá um fim melancólico, com chances de perder a eleição no primeiro turno. Nada demais, por se tratar de um comentário, não fosse o adendo: “ele descambou para a direita raivosa”. Do outro, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, dizendo que o autor das afirmações não merecia crédito.
É certo que em cena está uma discussão ideológica, mas, no fundo, ela serve apenas como argumento para os dois lados fugirem de questões centrais. O fato de a política externa ganhar ênfase no discurso, sobretudo da oposição, aponta que se trata de uma estratégia de desconstrução do adversário, mas aonde entra o interesse coletivo? Salvo ações pontuais, sobretudo quando questionados, os candidatos pouco abordam questões centrais como a economia, saúde, segurança e educação.
Esse tipo de postura não chega, sequer, a ser inédito, pois está claro, há tempos, que a desmitificação do oponente passou a ser a ação preferencial dos marketeiros, mesmo sabendo que a maioria da população passa distante desse tipo de assunto. O eleitor, em vez disso, prefere olhar para o futuro, preocupado com as suas contas e como ficará sua vida após a mudança de presidente.
Como, depois de oito anos, haverá um novo inquilino no Planalto, o novo cenário causa preocupações, principalmente quando sai de cena - sairá mesmo? - um político com popularidade tão alta. Seja Serra, Dilma ou Marina, para ficar nos mais cotados, haverá sempre uma cobrança para a manutenção do ciclo virtuoso que ora encanta os economistas e coloca a classe média no centro das discussões.
O calendário oficial de campanha, que agora permite os candidatos a realizarem eventos, participarem de debates e até fazerem panfletagem - restando apenas o horário eleitoral a partir de 17 de agosto -, não foi suficiente para melhorar o nível de discussão que se esperava ante uma eleição tão importante. Salvo afirmações pontuais, os políticos estão mais preocupados em desconstruir o adversário do que apresentar suas propostas de Governo.
Não é fato novo a troca de críticas como objeto de mobilização, mas, de novo, o eleitor perde ao não ter direito a conhecer, de fato, o que os políticos pretendem para o país, ainda mais sob um cenário inédito já chamado de ciclo pós-Lula. São muitos os desafios pela frente, sobretudo pelo papel de protagonismo que o Brasil ganhou em várias frentes. Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, para ficar só nesses três, têm projetos nesse sentido?
A semana termina com o mesmo clima de ação e reação. Desta vez, os destaques foram a quebra de sigilo de um dirigente tucano e a “descoberta” - ela desmente - da autora da invasão dos dados fiscais do advogado Eduardo Jorge, que serviram de argumento para vários pronunciamentos e postagens no Twitter, a ferramenta que mais atrai os candidatos. Somada a isso, a denúncia do vice de José Serra sobre o envolvimento do PT com as Farc.
São fatos importantes, mas que, além de não chegarem ao andar de baixo, no qual se localiza o grosso do eleitorado, não produzem um avanço sequer nos temas que interessam diretamente ao povo.
A briga que o presidente Lula iniciou com a Fifa por conta das críticas à infraestrutura nacional não interessa aos torcedores a partir do ponto em que a discussão não leva a lugar algum. O presidente, embora encerre seu mandato em 31 de dezembro, garante que tudo estará pronto no devido tempo, enquanto a Federação de Futebol Associado faz um jogo de terror que também não ajuda a ninguém. É bom lembrar que, antes da recente Copa do Mundo, havia uma apreensão global com a África. O que se viu, no entanto, foram estádios modernos - no Brasil não há nenhum como o Soccer City - e comunicação fácil com o exterior. De fato, o transporte foi caótico, mas até os aeroportos seguraram bem a demanda.
O Brasil, com uma economia bem mais saudável e com uma estrutura mais avançada, certamente dará conta do recado, mas é bom não deixar para última hora, pois qualquer serviço feito sob a pressa costuma ter problemas. O país foi escolhido há três anos, mas até hoje não se fez nada para mudar o cenário nacional. Hoje, os aeroportos são autênticas rodoviárias - há até terminais de ônibus melhores - e incompatíveis com a próxima demanda. Com o crescimento do poder aquisitivo, a classe média foi aos ares, mas os terminais continuam os mesmos.
A Fifa, embora precipitadamente e com tom de pressão, tem razão quando aponta o problema, mas deve ficar nesse ponto, da mesma forma que o presidente, que está correto quando reage ao jogo de fora, por conhecer o know how do Brasil. Mas não se pode ficar só no discurso, já que o tempo não para na curva e nem espera ninguém.
Ao Supremo Tribunal Federal será dada a palavra final para decidir a extensão do projeto da Ficha Limpa, que, ao curso dos últimos dias, tem dividido a opinião dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Alguns entendem que ele não pode alcançar demandas passadas, por ferir preceitos que impedem a retroatividade quando ela prejudica direitos. Outros, no entanto, não fazem essa consideração. Como resultado, vários candidatos estão conseguindo registrar suas candidaturas e outros não. O STF só irá falar em agosto.
Não há surpresa no fato de a discussão chegar à última instância judicial, pois a formatação de leis dentro do Congresso Nacional tem atendido mais a interesses pessoais ou de determinados grupos em detrimento da qualidade do texto elaborado e do alcance coletivo. O projeto de origem nas ruas, por exemplo, não tinha frases soltas, como a que foi adicionada pelo senador Francisco Dornelles com o claro interesse de mudar a amplitude da matéria. As primeiras interpretações rejeitaram seu adendo, mas outros magistrados entenderam que ele é correto ao definir prazos.
Pelo sim, pelo não, espera-se que o Supremo pacifique mais esta questão dentro do devido tempo, não só para garantir eventuais direitos, mas também para tirar de cena notórios infratores da legislação. Caso contrário, graças à interposição de recursos, eles poderão continuar na campanha como se não houvesse nenhuma restrição. O deputado Paulo Maluf, já condenado em segunda instância, não se mostrou, sequer, constrangido ao dizer que tem a ficha mais limpa do país. É um escárnio, mas vale quando as interpretações permitem que ele registre seu nome sem qualquer impedimento.