quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ampliar a produção


Em visita ao Congresso Nacional para participar de debates em uma comissão mista, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, retomou uma agenda dos tempos inflacionários, recomendando aos brasileiros pouparem mais em vez de irem às compras, como vem ocorrendo desde a mudança do patamar econômico do país. O discurso, do ponto de vista técnico, é correto, mas soa como se fosse o consumidor o responsável pelo aumento ostensivo dos preços nos últimos meses.
Não é de hoje que os especialistas vêm advertindo para a instabilidade dos números oficiais, enquanto, na realidade, há problemas de longa data que não foram sanados. O Governo, este sim, tem gastado mais do que pode, gerando problemas que começam, agora, a ser retirados do armário, obrigando a presidente Dilma Rousseff a cortar o orçamento, comprometendo, inclusive, o discurso que levou aos palanques nas eleições do ano passado, quando vendeu, como candidata, a imagem de um país de contas ajustadas e caixa provisionado.
É certo que não há, sequer, semelhança com os tempos inflacionários, mas é preciso tomar medidas para evitar o agravamento da situação, não do modo como recomenda o presidente do BC, impondo restrições à parte mais frágil da relação. Se houver redução do consumo, como pregam os manuais econômicos, haverá quebra em massa. O correto é investir no sistema produtivo e na infraestrutura, a fim de garantir a demanda sem comprometer os preços. Hoje, repete-se a velha lógica de mercado: consumo alto e produção baixa forçam aumento dos preços. Então, que se amplie a produção em vez de matar a galinha dos ovos de ouro.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Vigilância é vital


A decisão da presidente Dilma de priorizar o combate à miséria, a fim de livrar 16 milhões da linha abaixo da pobreza, é louvável não só pelo fato de cumprir uma meta de campanha, mas pelas razões humanitárias que deveriam ser comuns a qualquer Governo. O Brasil, a despeito dos avanços experimentados nas últimas duas décadas, ainda tem um déficit acentuado com os segmentos mais carentes, o que cria um contrassenso: tenta ser uma nação de primeiro mundo enquanto sustenta dados de terceiro. É fato que houve melhoras. De acordo com os índices divulgados na última terça-feira pela Fundação Getúlio Vargas, o percentual de pobres caiu em mais de 50% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010, confirmando a importância das políticas públicas de inserção social.
A prioridade é fundamental, mas é importante considerar outras camadas, inclusive aquelas que mudaram de patamar e se encontram numa faixa de indefinição. A nova classe média experimenta um novo quadro de acesso aos bens de consumo, mas começa a pagar uma conta pela qual não foi responsável: o aumento da inflação. O país agiu no sentido de mudar o seu cenário social, mas foi leniente ao não investir na infraestrutura e, principalmente, no setor produtivo. Hoje, temos um consumo em curva ascendente enquanto a produção não dá conta do mercado. Como resultado, os preços sobem, mesmo em períodos em que não haveria motivo para isso ocorrer.
O desafio de acabar com a miséria deve ser acompanhado por ações de combate à inflação, pois não há espaço para o retorno aos tempos em que a incerteza dos preços gerava um mercado de especulação. Há um elevado contingente de brasileiros que, sequer, sabe o que é inflação por não ter convivido com a ciranda de preços dos anos 1980. É preciso, pois, estar atento para os picos que já incomodam, embora o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tenha afastado qualquer risco. Como o discurso nem sempre corresponde aos fatos, é vital insistir na vigilância.