sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um só palanque


Há 25 anos, o 25 de abril foi emblemático para a história nacional recente em função de um paradoxo. Uma derrota significou o início do fim do regime militar em razão da voz das ruas que ganhou força com a rejeição da emenda Dante de Oliveira. Apresentada pelo deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT), ela restabelecia a votação direta para a presidência da República. Teve 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções. Mas não obteve quorum suficiente por causa da ausência de 113 deputados no plenário. A velha forma de rodízio dos generais estava mantida, mas o país nunca mais seria o mesmo.

Na verdade, antes mesmo de a matéria chegar ao plenário, a campanha pelas Diretas Já estava nas ruas, mas, foi a partir da rejeição do Congresso, que a mobilização se multiplicou. Comícios com mais de quinhentas mil pessoas eram rotina, e a cidadania aflorava pelo país afora. As mobilizações na Praça da Sé, em São Paulo, e na Candelária, no Rio de Janeiro, foram as mais emblemáticas, uma vez que reuniram, no mesmo palanque, lideranças das mais variadas tendências.

Um quarto de século depois, o país é outro, com as instituições funcionando em sua plenitude e os direitos, a despeito de alguns problemas, respeitados. Mas não se trata de uma jornada encerrada. A corrupção continua sendo um flagelo, e o jogo político, que dispensou o viés ideológico em nome da causa comum da mudança, não foi retomado. Hoje, há ações eminentemente políticas, nas quais o interesse individual ou de corporações substituiu a vontade maior das ruas.

A mobilização que colocou no mesmo palanque adversários de hoje e conciliou alguns do passado, já não existe, mas é vital que a cidadania atente que ainda há um caminho a trilhar. Da mesma forma que havia um inconformismo com o status quo, não há espaço para tolerar, sem protesto, as mazelas que se acentuam no debate nacional. A crise que afeta especialmente o Congresso não deve ser respondida com pruridos de golpe - tipo fechá-lo -, mas é vital que as ruas mostrem aos políticos que não se pode abrir mão da ética, única ferramenta capaz de inibir o uso sem controle das passagens aéreas ou a troca de apoio por favores.

O voto é sagrado e foi em nome dele que um país inteiro se uniu há 25 anos, quando as liberdades eram limitadas e os constrangimentos constantes. Mas foi um caminho sem volta. A democracia, pela qual muitos pagaram um alto preço, deve ser reverenciada todos os dias, especialmente pelos atuais detentores de mandato, alguns deles beneficiários diretos do ciclo de mudança.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

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