quinta-feira, 21 de maio de 2009

Fogo amigo


A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, tem razão quando considera de mau gosto misturar política com doença. Afinal, falou quando tinha que falar - ela anunciou o câncer ao lado dos médicos - e pediu privacidade. Mas quem está usando a doença é a sua própria base política no Congresso, com os pruridos de insegurança que costumam marcar os partidos que agem de acordo com as conveniências. Quando o presidente Lula a chamou de mãe do PAC e a colocou no centro das atenções, muitas lideranças foram atrás. Ao primeiro sinal de fragilidade, já dão mostras de que podem mudar de lado, dependendo das circunstâncias.

Lidar com doença na instância pública sempre foi um problema. O general Costa e Silva escondeu o quanto pôde o derrame que o levaria ao impedimento, sendo substituído por uma junta militar; mas o caso mais recente envolveu o ex-presidente Tancredo Neves. Temendo um recuo institucional, pois os militares viam nele a única figura capaz de fazer a transição segura para o regime civil, escondeu até o último momento uma diverticulite. Fez de tudo para tomar posse, mas a doença o venceu na véspera. Quando a capital federal já estava ocupada por milhares de pessoas, inclusive presidentes de outros países, ele baixou ao hospital e não saiu mais do leito.

O vice-presidente, José Sarney, só tomou posse por um gesto de desprendimento do então presidente do Congresso, Ulysses Guimarães, que recusou os convites e a tentação de ocupar a cadeira, e pela ação de setores importantes, inclusive militares, que asseguraram a legitimidade do vice. Mesmo assim, o presidente Figueiredo recusou passar-lhe a faixa e saiu pelos fundos do Palácio do Planalto.

Dilma tem todo o direito de questionar o uso político, mas terá que compreender que a própria visibilidade que lhe foi dada virou um problema. Pela projeção que tem e por ser, hoje, a única personalidade do Governo a encarnar a disputa presidencial, seus mínimos gestos serão avaliados, mesmo que para isso tenha que ser exposta. O internamento, em razão dos efeitos da quimioterapia, se escondido seria uma incoerência com ela própria, que teve a saudável coragem de mostrar ao país que tinha uma doença e que estava disposta, como se espera, a vencê-la. É assim que age o vice-presidente José Alencar, um exemplo de vida para todos.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

Nenhum comentário: