quinta-feira, 30 de abril de 2009

Quebra do silêncio


Quando venceu as eleições no Colégio Eleitoral, em 1984, que o fariam o primeiro presidente civil do Brasil depois do ciclo militar, Tancredo Neves já sentia os primeiros sintomas da diverticulite que se agravaria e tiraria sua vida em 21 de abril do ano seguinte. Eleito, mesmo que pelo voto indireto, escondeu a doença em nome da governabilidade, por entender que, se fosse operado, ou ficasse inabilitado para assumir o posto, o país iria mergulhar, de novo, num ciclo de trevas. São meras hipóteses, mas com um fundo sólido de possibilidade, que acabaram redundando na morte de um homem eleito para fazer mudanças. Seu sucessor, José Sarney, a despeito de um mandato de cinco anos, só presenteou o país com uma inflação de 80% mensais e os amigos com concessões de rádio.

Dito isso, quando a ministra Dilma Rousseff expõe ao país que está tratando de um câncer, inverteu o processo de silêncio que marca a vida política nacional e mostrou que, mesmo estando padecendo de algo grave - mas curável -, adotou a melhor postura, sobretudo pelo fato de ser a candidata in pectore do presidente Lula à sua sucessão. Se ficasse calada e, posteriormente, revelasse que tinha se submetido a um tratamento de tal porte, certamente passaria a impressão de escamotear os fatos.

A revelação foi importante, mas, a partir daí, é preciso mudar o foco, pois criou-se um cenário de comiseração, por parte de alguns, e de interesse antecipado de outros, que esbarra até mesmo em princípios éticos. Não se trata nem de uma coisa, nem de outra. A doença não é algo que deva ir para os palanques, sobretudo pelo seu caráter pessoal. Qualquer discussão política, seja ela de solidariedade, ou de oportunismo, está fora de hora. A ministra tem que cumprir os seus quatro meses de quimioterapia e ir adiante, uma vez que - aí sim - seu exemplo servirá de referência para milhares de pessoas que se encontram na mesma situação. Ela não deve se entregar, e os políticos devem respeitar a sua posição, inclusive o presidente da República, que também errou ao pedir a solidariedade à ministra em pleno périplo eleitoral. Ela já tem, não carecendo, pois, de qualquer pedido do chefe do Governo.

Ademais, o país tem outras demandas para discutir, dentro e fora do Governo, que precisam, com uma certa urgência, ser analisadas. Há escândalos não resolvidos e há soluções de meia perna, como foi o caso das passagens aéreas. O gasto com os cartões corporativos e com os celulares dos parlamentares, dizem, deixará a “gastança” com as passagens no chinelo.

Editou: M.J. Ranieri, jornalista aposentado

Um comentário:

Airton Leitão disse...

Falou por mim. Achei oportunismo e exploração da doença de Dilma a apelação de Lula lá no Amazonas, dando a entender que ela, coitadinha, ´recisa ser eleita em 2010. Se for para se votar em Dilma, que seja por achar que ela é um bom nome e não por peninha pelo fato de ela estar doente.