
O depoimento do tenente Vinícius Ghidetti de Moraes (foto quando depunha), acusado de ter entregado três jovens do Morro da Providência, no Rio, para os traficantes, tem momentos que estarrecem. Depois de uma crise de choro, disse que jamais pensou que os adolescentes fossem mortos, pois sua meta era apenas dar-lhes um susto. O sargento Maia, autor do traslado, disse que ainda recomendou aos bandidos que era apenas um susto, nada mais do que isso. O juiz que presidia a audiência exasperou-se. “E traficante obedece”? - disse em tom claro.
As intenções do militar, que ficarão claras no decorrer do processo, refletem, de uma certa forma, a insanidade que permeia a sociedade. A violência tornou-se rotina, e as iniciativas de controle, por mais intensas que sejam, ainda não são suficientes para, pelo menos, reduzir os efeitos desse novo cenário. O zelo pela vida tornou-se raso, e as ocorrências são cada vez mais freqüentes.
No último fim de semana, um policial militar que fazia a segurança de uma promotora acabou atirando contra um jovem num conflito que começou dentro de uma boate e se estendeu pelas ruas. Disse que foi em legítima defesa, mas os primeiros laudos apontam para um disparo à queima roupa. E o que fazia um jovem sob proteção dentro de uma boate tão badalada já no final da madrugada; e como o policial estava armado dentro da casa de baladas?
O uso de armas de fogo descontrolado e a postura do tenente do Exército de dar apenas um corretivo nos jovens, mas os entregando a um grupo de celerados, são reveladores e indicativos de que é preciso, inclusive, repensar as relações de família. Os jovens estão se formando sem uma estrutura básica que aponte para valores fundamentais, a começar pela própria vida. O que se vê pelas ruas é preocupante e é resultado de inações coletivas, que começam dentro de casa e terminam na omissão do próprio Estado.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista

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