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A falta de limites que tem marcado as relações humanas nos tempos modernos é um fator que precisa ser combatido, sob o risco de se chegar a um ponto sem volta. Até há algum tempo, era impossível imaginar um aluno agredindo uma professora, ou, sequer, retrucando-a quando advertido. Na noite de terça-feira, numa escola estadual da região Sudeste, um adolescente de 16 anos chutou a barriga da professora e quebrou-lhe os óculos com um soco. Tudo isso na frente dos colegas, pelo simples fato de ter sido impedido de falar ao celular. Ao olhar da mãe, a mestra estava errada.
A figura do mestre sempre foi uma referência como fonte de conhecimento. Hoje, no entanto, além de ensinar, tem que educar, resultando numa relação tensa, já que a família, de uma certa forma, se omitiu dessa função. Trata-se de um equívoco cujo custo pode ser observado no elevado número de licenças médicas por depressão. Uma pessoa que passa boa parte da vida se preparando para repassar conhecimento, torna-se responsável pela educação e vítima dos próprios alunos.
É fato que os próprios autores são vítimas de um cenário de desigualdades, mas, como educação vem de berço, é preciso investir na família, a fim de que esta cumpra o seu papel. O lar é a referência que fica, uma vez que uma má formação compromete uma vida. Adolescentes criados sem um norte desconhecem a figura do professor e agem - como foi o caso - sem qualquer tipo de culpa. Daí a insistência em ampliar os investimentos na formação, a fim de reter esse quadro que fica cada vez mais crítico.
A violência é fruto da base e da falta de perspectiva que marca os segmentos mais carentes. Não basta, pois, o país avançar economicamente se a formação de cidadãos ainda é precária. O perverso é que a conta, quase sempre, cai sob a mesma sociedade. A agressão a essa professora é apenas mais uma, pois tantas outras - algumas que sequer chegam à polícia - ocorrem nas escolas ou no seu entorno. E, quando isso acontece, já não se trata mais de um alerta, mas de uma constatação de que é preciso enfrentar de frente esse problema.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, tem razão quando considera de mau gosto misturar política com doença. Afinal, falou quando tinha que falar - ela anunciou o câncer ao lado dos médicos - e pediu privacidade. Mas quem está usando a doença é a sua própria base política no Congresso, com os pruridos de insegurança que costumam marcar os partidos que agem de acordo com as conveniências. Quando o presidente Lula a chamou de mãe do PAC e a colocou no centro das atenções, muitas lideranças foram atrás. Ao primeiro sinal de fragilidade, já dão mostras de que podem mudar de lado, dependendo das circunstâncias.
Lidar com doença na instância pública sempre foi um problema. O general Costa e Silva escondeu o quanto pôde o derrame que o levaria ao impedimento, sendo substituído por uma junta militar; mas o caso mais recente envolveu o ex-presidente Tancredo Neves. Temendo um recuo institucional, pois os militares viam nele a única figura capaz de fazer a transição segura para o regime civil, escondeu até o último momento uma diverticulite. Fez de tudo para tomar posse, mas a doença o venceu na véspera. Quando a capital federal já estava ocupada por milhares de pessoas, inclusive presidentes de outros países, ele baixou ao hospital e não saiu mais do leito.
O vice-presidente, José Sarney, só tomou posse por um gesto de desprendimento do então presidente do Congresso, Ulysses Guimarães, que recusou os convites e a tentação de ocupar a cadeira, e pela ação de setores importantes, inclusive militares, que asseguraram a legitimidade do vice. Mesmo assim, o presidente Figueiredo recusou passar-lhe a faixa e saiu pelos fundos do Palácio do Planalto.
Dilma tem todo o direito de questionar o uso político, mas terá que compreender que a própria visibilidade que lhe foi dada virou um problema. Pela projeção que tem e por ser, hoje, a única personalidade do Governo a encarnar a disputa presidencial, seus mínimos gestos serão avaliados, mesmo que para isso tenha que ser exposta. O internamento, em razão dos efeitos da quimioterapia, se escondido seria uma incoerência com ela própria, que teve a saudável coragem de mostrar ao país que tinha uma doença e que estava disposta, como se espera, a vencê-la. É assim que age o vice-presidente José Alencar, um exemplo de vida para todos.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado
Para melhor explicar o caso do deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), afastado ontem do cargo de relator da comissão que analisa o processo contra o seu colega Edmar Moreira, é vital adiantar que ele caiu não pelo fato de estar se lixando para a opinião pública - o que já seria um bom argumento -, mas pela antecipação do voto ao dizer que não via culpabilidade no deputado mineiro, enfatizando, ainda, que havia demandas mais graves em discussão, e citou o caso das passagens aéreas.
Opinião e voto são garantias constitucionais, aliás, as duas únicas que garantem a imunidade parlamentar ante processos e outras ações penais, mas o que ele fez foi, antes da instrução do caso - quando são ouvidas as partes e produzidas as provas -, dizer o que iria fazer. Cometeu, no mínimo, uma improbidade processual que o fez suspeito no julgamento. O deputado Edmar Moreira deve ter amplo direito de defesa e não precisava do comentário do relator, que acabou sendo um indutor para o açodamento do debate.
Quanto a agir com descaso com o eleitor, o parlamentar, a despeito de sua postura, não é o único a fazê-lo. Uns, como foi o caso, explicitam num pronunciamento, de uma certa forma, corajoso. Outros, sob o manto do silêncio, usam meios mais sórdidos, ao desconhecer todos os acordos firmados com o eleitor no período de campanha.
A opinião pública não é um ente material que rege as ações da mídia e dos próprios políticos, mas a voz das ruas, que é necessária para estabelecer racionalidade nas discussões. Erram os que dizem que o povo é massa de manobra. Quem assim pensa desconhece fatos históricos. Foi o povo que retomou o ciclo das diretas, ante um colégio eleitoral teleguiado, e foi também ele que derrubou um presidente, que, tal como o senhor Sérgio Moraes, desconhecia o sentimento popular. O povo pode até ser enganado por um tempo, mas não por todo o tempo. Fernando Collor, que hoje admite ter errado, pensava assim. Caiu.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado
Ouvi, há bastante tempo, num telejornal, uma notícia que me deixou feliz, mas ao mesmo tempo descrente: a venda de livros infantojuvenis, no Brasil, subiu 50%. Só que este índice fabuloso, segundo a notícia, era creditado à internet. E foi este crédito que tornou discutível a informação. Está certo que a internet facilita a divulgação de quase tudo o que é publicado, tanto no suporte tradicional, o livro impresso, como em outras mídias, proporcionando maiores opções de escolha. Mas dizer que foi ela quem provocou um aumento tão significativo nas vendas pode caracterizar algum exagero.
A internet é um recurso tecnológico valioso na pesquisa de qualquer assunto e uma ferramenta insubstituível nos dias atuais. Mas é sabido, também, que os adolescentes que têm acesso não vão à rede procurar novos títulos para ler, com raras exceções.
Eles participam de bate-papos em salas de chat, visitam o Orkut, o Skype e outros programas de comunicação, participam de jogos on-line, capturam e trocam músicas, enfim, navegam ao sabor dos sites. O que é natural, diga-se de passagem. Mas isso ocupa um tempo que poderia ser usado para ler, por exemplo. É, portanto, temeroso creditar à internet o crescimento do índice de leitura em crianças e adolescentes
Interessante que, poucos dias depois de ouvir essa notícia, leio, numa dessas revistas semanais de informação, uma matéria de capa a respeito de pesquisa sobre leitura, que veio ao encontro daquilo que havíamos concluído: o brasileiro gosta de ler. Ele pode até não ter dinheiro para comprar livros, mas gosta de ler. De acordo com a pesquisa, 78% de 5.503 pessoas consultadas em quarenta cidades brasileiras gostam de ler livros - e há que se considerar que esta é uma esmagadora maioria daqueles que responderam ao que foi perguntado.
Mas se as vendas dos livros infantojuvenis cresceram 50% - e sabemos que este gênero é um dos que mais vende nos últimos tempos -, em se baixando o limite de idade para 7 anos ou menos, na referida pesquisa, o índice seria, certamente, muito maior.
O discurso de que a campanha eleitoral só vai ocorrer no ano que vem é um mero exercício de imaginação, pois é visível a ação das legendas já em torno dos nomes que serão levados aos palanques. Pode-se dizer que são apenas articulações, mas o próprio presidente Lula desmente tal assertiva ao andar para cima e para baixo com a ministra Dilma Rousseff a tiracolo. O mesmo pode ser dito em relação ao périplo que os governadores Aécio Neves e José Serra começam no mês que vem pelo país afora. Também estarão em campanha.
Deputados, senadores e candidatos ainda sem mandato fazem a mesma coisa, sobretudo pelo fato de a disputa não ser definida no ciclo oficial de campanha, mas nos arranjos anteriores. Quem deixar para ir a campo na última hora corre o risco de encontrar o lugar ocupado. Prefeitos e vereadores, que agora viram cabos eleitorais, já estão sendo assediados. A um ano e meio da disputa, o cenário está pronto e as primeiras jogadas já estão sendo feitas.
A dúvida do eleitor é saber com quais regras ele vai votar. Hoje, o voto é no candidato, com o viés ideológico - infelizmente - ficando em segundo plano. Pelo sistema de lista, ora em tramitação na Câmara Federal, vale a legenda, que ficará encarregada de colocar os nomes em ordem, sendo eleitos os primeiros da relação. Trata-se de um sistema inédito, que enfrenta críticas em razão da própria fragilidade partidária. A despeito de o argumento central para sua adoção ser o fortalecimento dos partidos, o voto em lista tem que ser visto com reservas, já que boa parte dos quadros não tem uma formação ideológica sólida.
Com isso, o topo da lista seria ocupado pelos cardeais da legenda, pelos presidentes dos diretórios e pelos políticos já com mandato, deixando os demais militantes na situação desconfortável de só buscar votos. É fato que a luta interna se reforça, mas, como foi dito, nem todas as agremiações têm um colegiado ativo, no qual todos discutem, tendo voz e voto. Na maioria das vezes, as legendas têm dono, em vez de lideranças. Ademais, o eleitor precisa saber em quem está votando para evitar o risco de comprar gato por lebre, ou eleger políticos que, mais tarde, estarão pouco se lixando para a sua opinião.
Editou:M. J. Ranieri, jornalista aposentado
O corregedor da Câmara, deputado ACM Neto (DEM-BA), vai defender o afastamento do relator do Conselho de Ética, deputado Sérgio Moraes (PTB-RS) que, além de praticamente antecipar seu voto, inocentando o deputado Edmar Moreira, disse que está se lixando para a opinião pública. Como já foi exposto neste espaço, ele errou duas vezes, pois apresentou sua posição antes mesmo da fase de instrução, e ofendeu os eleitores, principalmente os gaúchos que já renovaram seu mandato por várias legislaturas.
O parlamentar não é uma voz solitária no Congresso, embora tenha sido o único - e não vai repetir - a explicitá-la publicamente. Há outras que têm a mesma opinião, achando ser o eleitor apenas um rito de passagem para garantir sua permanência no Legislativo ou no Executivo. Por falta de clareza da lei e dificuldades de acesso da maioria da população ao trabalho dos políticos ou ao que andam falando - a favor ou contra o público -, eles continuam renovando seus mandatos.
Entre os pesquisadores e cientistas políticos, a leitura é de que o deputado Sérgio Moraes repetiu um velho bordão do personagem Justo Veríssimo, interpretado por Chico Anísio, no qual ele enfatizava: “Quero que o eleitor se exploda”. É a vida imitando a arte, mas dando pistas de que não se trata de algo novo. A postura do comediante é um indicativo de que não é de hoje que várias lideranças estão alheias ao pensamento das ruas. A relação só se acentua em períodos eleitorais, depois disso cada um gerencia o mandato de acordo com seus interesses.
Como o único meio de controle é o voto, espera-se que os eleitores de 2010 fiquem atentos aos clones do deputado Sérgio Moraes e mostrem a eles que a opinião pública é o principal termômetro das ações sociais. Ficar alheio a ela é descumprir as razões do mandato e, sobretudo, burlar um contrato firmado, em tese, na hora do voto.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado
Quando um membro do Conselho de Ética da Câmara Federal diz que está se lixando para a opinião pública, como foi o caso do deputado Sérgio Moraes(foto) (PTB-RS), relator do processo contra o deputado Edmar Moreira (sem partido), acusado de uso indevido da verba indenizatória, há uma série de fatores que carecem de imediata avaliação. O primeiro deles é o próprio princípio ético que é colocado em xeque por um membro do próprio conselho que trata do tema.
Se ele não está nem aí para a opinião pública, intui-se, de pronto, que se considera descompromissado com os eleitores que o elegeram, dando, além disso, mostras de que seus mandatos não são programáticos, mas fruto de algum artifício que não envolva discussão ideológica ou política na captação do voto.
A segunda questão está no pronunciamento do parlamentar ao não ver razões para punir o seu colega, em função de coisas piores terem acontecido na Câmara, como a farra das passagens aéreas, que não puniu nenhum parlamentar. O relator erra na forma, pois, apesar de ter o livre convencimento para não encontrar provas contra seu colega, algo factível, aborta toda a sua justificativa ao fazer uma comparação tão sem sentido. Quer dizer, então, que os delitos se classificam pela ordem? Se o mais grave não é punido, o de menor impacto tem absolvição automática.
O próprio Conselho de Ética deve avaliar o pronunciamento do relator, não por ter antecipado o parecer, mas por causa de sua postura diante do eleitor, que, necessariamente, faz parte da opinião pública. Sua arrogância, ao dizer que, apesar das críticas, tem obtido sistemáticas reeleições, é o de menos, mas agir com descaso com o dono de seu mandato é grave, sobretudo quando tal ponto de vista parte de alguém que faz parte de um conselho responsável pelo cumprimento do decoro parlamentar.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado