sexta-feira, 16 de julho de 2010

SAIR DO DISCURSO


A briga que o presidente Lula iniciou com a Fifa por conta das críticas à infraestrutura nacional não interessa aos torcedores a partir do ponto em que a discussão não leva a lugar algum. O presidente, embora encerre seu mandato em 31 de dezembro, garante que tudo estará pronto no devido tempo, enquanto a Federação de Futebol Associado faz um jogo de terror que também não ajuda a ninguém. É bom lembrar que, antes da recente Copa do Mundo, havia uma apreensão global com a África. O que se viu, no entanto, foram estádios modernos - no Brasil não há nenhum como o Soccer City - e comunicação fácil com o exterior. De fato, o transporte foi caótico, mas até os aeroportos seguraram bem a demanda.

O Brasil, com uma economia bem mais saudável e com uma estrutura mais avançada, certamente dará conta do recado, mas é bom não deixar para última hora, pois qualquer serviço feito sob a pressa costuma ter problemas. O país foi escolhido há três anos, mas até hoje não se fez nada para mudar o cenário nacional. Hoje, os aeroportos são autênticas rodoviárias - há até terminais de ônibus melhores - e incompatíveis com a próxima demanda. Com o crescimento do poder aquisitivo, a classe média foi aos ares, mas os terminais continuam os mesmos.

A Fifa, embora precipitadamente e com tom de pressão, tem razão quando aponta o problema, mas deve ficar nesse ponto, da mesma forma que o presidente, que está correto quando reage ao jogo de fora, por conhecer o know how do Brasil. Mas não se pode ficar só no discurso, já que o tempo não para na curva e nem espera ninguém.

domingo, 11 de julho de 2010

Decisão já!


Ao Supremo Tribunal Federal será dada a palavra final para decidir a extensão do projeto da Ficha Limpa, que, ao curso dos últimos dias, tem dividido a opinião dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Alguns entendem que ele não pode alcançar demandas passadas, por ferir preceitos que impedem a retroatividade quando ela prejudica direitos. Outros, no entanto, não fazem essa consideração. Como resultado, vários candidatos estão conseguindo registrar suas candidaturas e outros não. O STF só irá falar em agosto.

Não há surpresa no fato de a discussão chegar à última instância judicial, pois a formatação de leis dentro do Congresso Nacional tem atendido mais a interesses pessoais ou de determinados grupos em detrimento da qualidade do texto elaborado e do alcance coletivo. O projeto de origem nas ruas, por exemplo, não tinha frases soltas, como a que foi adicionada pelo senador Francisco Dornelles com o claro interesse de mudar a amplitude da matéria. As primeiras interpretações rejeitaram seu adendo, mas outros magistrados entenderam que ele é correto ao definir prazos.

Pelo sim, pelo não, espera-se que o Supremo pacifique mais esta questão dentro do devido tempo, não só para garantir eventuais direitos, mas também para tirar de cena notórios infratores da legislação. Caso contrário, graças à interposição de recursos, eles poderão continuar na campanha como se não houvesse nenhuma restrição. O deputado Paulo Maluf, já condenado em segunda instância, não se mostrou, sequer, constrangido ao dizer que tem a ficha mais limpa do país. É um escárnio, mas vale quando as interpretações permitem que ele registre seu nome sem qualquer impedimento.



domingo, 27 de junho de 2010

Ganha a democracia


Depois da Ficha Limpa, que tem todo um viés saneador da vida pública, o Tribunal de Contas da União divulgou uma lista com mais de cinco mil gestores impedidos de disputar as próximas eleições, uma vez que não tiveram suas contas aprovadas. Bom para o país, pois dará ao eleitor a oportunidade de fazer escolhas com base em projetos e sem a preocupação de avaliar a folha corrida dos candidatos. A Justiça Eleitoral ainda deve fazer novas interpretações, pois as consultas, agora, serão uma rotina, sobretudo por parte de personalidades atingidas, como os ex-governadores Paulo Maluf e Anthony Garotinho, só para ficar nestes dois casos.

Não é de hoje que se discute a prerrogativa sobre a triagem que deve ser feita. Originariamente, ela deve caber aos partidos, pois são os responsáveis pela homologação ou não de candidaturas. Mas isso, na maioria das vezes, não é feito, pois prevalece uma perversa lógica de resultados, isto é, importa não o currículo, mas o potencial de votos do pretendente. Se for bom de urna, as demais “qualidades” tornam-se insignificantes.

Quando ocorrem os escândalos, como os diversos mensalões que ocuparam o noticiário nos últimos dez anos, não há legenda que assuma a responsabilidade, deixando para a Justiça definir o destino dos envolvidos, só agindo em segunda instância, mesmo assim dependendo da repercussão. São muitos os casos de políticos afastados dos partidos só depois de uma condenação das ruas ou da primeira instância judicial.

A Ficha Limpa e a mão forte do Tribunal de Contas devem retomar a competência primária das avaliações para os diretórios. Os partidos, já sabendo dos riscos e dos danos, certamente, terão um novo olhar para os postulantes. Ganham todos, sobretudo a democracia, que deve ser implementada por lideranças que agem dentro dos princípios da lei.



sexta-feira, 25 de junho de 2010

Não basta ficha limpa


Tem razão o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, dom Geraldo Lyrio da Rocha, ao recomendar - em entrevista à Folha - que o eleitor não deve esgotar suas investigações no âmbito da ficha dos candidatos. É preciso, também, verificar seu desempenho, quando se trata de políticos que buscam a reeleição, até mesmo daqueles que já têm mandato em outras instâncias. A Ficha Limpa, que virou lei, é um importante instrumento para acompanhar o lado moral dos políticos, mas a escolha não deve ser tão simples.

De fato, há políticos que não cometem nenhum ilícito, mas também não fazem nada, tornando o mandato apenas uma carreira. Na hora do voto, é necessário pactuar que o mandato é para ser exercido em sua plenitude, com discussão de temas de interesse coletivo e de projetos que tenham o mesmo objetivo. Um político que passa o mandato sem desempenhar qualquer dessas funções deve ficar em casa ou buscar outra atividade, pois contraria o sentido da representação.

Há, também, os que rompem compromissos acertados no período de campanha, sobretudo de ordem programática. Vão aos palanques com um discurso e, logo após a posse, mudam suas ações, ou até mesmo de partidos, embora a Lei de Fidelidade Partidária tenha, pelo menos, inibido esse jogo que era rotina nos legislativos. Em nome de interesses pessoais e sem qualquer consulta às bases, foram muitos os que trocaram de legenda.

A CNBB, autora da advertência, tem papel importante na discussão, por ter um palanque de grande reverberação. Assim, além da entrevista do seu presidente, poderia tornar a afirmação uma orientação, já que o acúmulo de informações é fundamental para melhorar a qualidade da política

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quem saiu pelos fundos...

O deputado Paulo Maluf (PP-SP), sem o menor constrangimento, disse aos repórteres que o assediaram para comentar a decisão do TSE, que antecipou a vigência da Lei da Ficha Limpa, que a dele é a mais limpa do país. Trata-se de um escárnio, uma vez que o parlamentar já sofreu toda sorte de condenação, inclusive das instâncias superiores, e nem pode viajar ao exterior por ordem de prisão nas mãos da Interpol. Suas declarações, além disso, provam como a legislação brasileira é frágil, pois o ex-prefeito de São Paulo, por sua ficha, deveria estar afastado do mandato há muito tempo. E o eleitor pauista ainda votou nele...

Ele, no entanto, não é o único, embora o mais notório, que exerce o mandato sem contestação legal em virtude dos permanentes recursos interpostos no curso dos processos. A interpretação do TSE, mesmo com os possíveis riscos de insegurança jurídica, já aventados nesse espaço, é positiva nesse sentido. Se não houver novos recursos, Maluf e tantos outros serão carta fora do baralho.

Há tempos se pede uma legislação que dê ao eleitor a oportunidade de escolher sem o risco de perder o voto com recorrentes infratores. A emenda do senador Francisco Dornelles, mudando a vigência da Lei, já na fase de redação, foi uma última tentativa de mudar a essência da norma. Nesse caso, prevaleceu a intenção dos juízes que perceberam a artimanha adotada pelo parlamentar fluminense. Ainda faltam pontos a esclarecer, como a punição de políticos que perderam o mandato e de candidatos que renunciaram para fugir da cassação.

Ambos devem ser alcançados pela norma, pois seus atos, sobretudo os que pularam fora do barco, foram mera estratégia para evitar algo maior. Nesse caso, a lei deve dar ao eleitor o direito de ver a Justiça se realizar, pois quem adota a porta dos fundos para salvar o mandato não pode ter o direito de voltar pela da frente.





quarta-feira, 9 de junho de 2010

Não aprenderam a lição




Ao curso dos últimos dias, sobretudo na instância da disputa federal, o noticiário relatou a existência de um possível dossiê contra o candidato José Serra. Ainda bem que tal operação - se é que de fato existiu - foi abortada, pois seria a repetição de episódios de tempos anteriores que em nada ajudaram no processo democrático. Ao contrário, esse tipo de denúncia enfraquece as instituições e expõe o lado menor da política, pois geralmente são denúncias sem fundamento ou sem paternidade.

Quando era presidente da República, Itamar Franco recebeu em audiência o então senador Antônio Carlos Magalhães, famoso por esse tipo de “documento”, que insinuou ter sérias denúncias a fazer. Aceitou recebê-lo, mas o fez de modo inusitado. Quando o dirigente baiano entrou no gabinete, deparou-se com os jornalistas, convidados por Itamar para acompanharem a reunião. Eram meros recortes de papel com matérias que expunham possíveis mazelas do adversário. ACM saiu irritado do Palácio, virou inimigo, mas não voltou mais a falar no assunto.

O que as lideranças devem fazer é repetir o gesto do ex-presidente, que desmascarou a possível denúncia expondo a sua ineficácia. Os dossiês, quase sempre, são um tiro no pé, sobretudo em períodos de campanha eleitoral. Não é preciso, sequer, recorrer ao caso dos aloprados, que deveria servir de exemplo para não ocorrer algo semelhante. A eliminação dos possíveis autores foi um gesto maior da política.

O que se espera dos candidatos e dos coadjuvantes do processo eleitoral é uma discussão profunda das demandas do país. O Brasil está se transformando em protagonista na instância global e deve manter esse papel, ao mesmo tempo em que não pode perder o norte de seus projetos internos. O eleitor, certamente, quer conhecer as metas dos políticos, pois é com base nelas que vai definir o seu voto, e não com denúncias que deveriam se esgotar, no máximo, na esfera policial.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Mas pode?



Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, o advogado Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça do Governo Lula, chamou a atenção para o comportamento dos pré-candidatos à Presidência da República. No seu entendimento, estão, sim, fazendo campanha antecipada. Mas não os penalizou. Para ele, o problema não está em Dilma Rousseff, José Serra ou Marina Silva - para ficar só nos três -, mas na legislação, que não acompanhou a dinâmica do tempo. Bastos defende uma mudança na lei, pois a interpretação da Justiça Eleitoral, feita em cima do texto vigente, comete injustiças, uma vez que não há como o candidato fugir do discurso.

O ex-ministro tem razão ao apontar a necessidade de se mudar a lei, mas é preciso destacar que seu ponto de vista poderia ter sido explicitado quando ocupava a pasta da Justiça. Certamente teria dado uma grande contribuição para um projeto de reforma eleitoral que nunca sai do texto. O leitor e o eleitor estão cansados de ler sobre essa demanda. Há tempos, fala-se em voto em lista, fidelidade partidária, financiamento de campanha e outras coisas mais, que acabam esbarrando no timing político, que nunca é o mesmo da sociedade.

Chama a atenção o fato de não se permitir sequer uma certa experiência para ver se dá certo. O Brasil tentou e não conseguiu consolidar o parlamentarismo, mas foi uma tentativa, a despeito das circunstâncias, no início dos anos 1960, que levaram a uma mudança de sistema. Hoje, o máximo que se fala é em fidelidade partidária, mas não há avanços nos demais itens por desinteresse do Congresso e por inação do Executivo, que teria, pelo poder de agenda, a força para levar a discussão à frente.

A mudança que o ex-ministro prega é importante, até mesmo para evitar danos ao próprio processo eleitoral. O presidente Lula, sem explicar como, disse ontem que pretende ir até as portas das fábricas pedir voto. Sem se licenciar pode? Com a palavra, a Lei.