
As declarações de desapontamento do deputado Ciro Gomes (PSB), que não aguenta mais a convivência na Câmara Federal e vê com desconfiança a aliança entre o PT e o PMDB, são emblemáticas, mas não são as primeiras. Diversas lideranças políticas, ao se depararem com o jogo bruto do Congresso Nacional, não seguraram o tranco e voltaram decepcionadas às suas origens. O próprio presidente Lula, que hoje conduz a agenda do Parlamento, não escondia sua frustração com o mandato legislativo. Embora fosse um dos constituintes, cumpriu apenas quatro anos, fez poucas sugestões, e não voltou mais, mesmo sob a possibilidade de continuar sendo o mais votado do país. E, quando saiu, cunhou a célebre frase de 300 picaretas com anel de doutor, que virou até música. Ciro pôs o dedo na ferida ao dizer que, quanto menos decente, maior é o prestígio. Há exagero na afirmação, mas não de todo, uma vez que a degradação da vida pública vem revelando um cenário em que o jogo de interesses se destaca, com os fins justificando os meios, sem qualquer preocupação com os métodos adotados. Num presidencialismo de coalizão, não há surpresa, pois o Governo precisa de apoio suficiente para tocar sua pauta. E aí, cede e cobra favores independentemente do que pensa o eleitor. Os caminhos para reverter essa situação são difusos, uma vez que o poder tem o dom, ou a perversidade, de mudar atitudes. Diversas lideranças, que ao curso dos anos cobravam a ética na política, mudaram o discurso ao se verem do outro lado do balcão. E não há luz no fim do túnel. Os ensaios pré-eleitorais são uma clara mostra de que o que menos preocupa as lideranças é a opinião pública. O ex-ministro acentua que os piores escândalos passam pela hegemonia de grupos, mas a mídia “distrai a população com escândalos de polichinelo”, advertiu. Uma reforma política não será suficiente para virar o jogo, pois há problemas que não se esgotam nessa mudança. Há um esvaziamento ético que dá margem a outras mazelas. É preciso investir na educação e apostar nas futuras gerações, para que sejam induzidas a ter a ética como um par constante em suas ações.

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