
Governos de coalizão, via de regra, são problemáticos em virtude do preço que se paga para manter alianças. É fato que o Executivo tem o poder de agenda, mas precisa, por sua vez, manter a base unida, a fim de garantir suas demandas. Por isso, não surpreende a posição do presidente Lula, que assumiu as articulações para a permanência do aliado José Sarney à frente do Senado. Não há viés pessoal de defesa do amigo, mas de um político que conduz o Congresso de acordo com as metas do Governo.
O presidente pode até errar no tom quando se intromete deliberadamente nas causas de um outro poder e critica duramente os adversários, mas é dessa forma que o jogo é jogado. Ele quer enquadrar seu partido e os aliados em nome da governabilidade. Quando diz que a oposição está querendo assumir o posto, fala mais para dentro do que para fora de seu grupo, apontando que, se nada for feito, a situação pode complicar.
Mas não é só mudando o presidente que estará sendo resolvido o impasse. Quando o senador Renan Calheiros disse que tinha um filho fora do casamento e, de roldão, foi envolvido em uma série de denúncias, o discurso recorrente pela sua saída era de que a Casa tinha que passar por um processo de moralização. Foi com esse discurso que Sarney voltou ao posto. A origem da crise, no entanto, é bem mais profunda, e os atos secretos foram apenas a ponta do iceberg.
Há de tudo no Senado, inclusive empréstimos, de um caixa que ninguém conhece, para socorrer os parlamentares e negociações que atingem os próprios servidores como se fossem um banco próprio para atendê-los. É necessário, pois, abrir a caixa preta e sanear todos os vícios que nela contêm.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

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