domingo, 15 de março de 2009

Sob ordem de quem?




A serem verdades as denúncias contidas no inquérito que apura a extensão da “Operação Satiagraha”, comandada pelo delegado Protógenes Queiroz, houve abusos de toda ordem numa investigação cujo alvo seria apenas o banqueiro Daniel Dantas e seus satélites. O policial, com apoio da Agência Brasileira de Informações, teria vasculhado a vida de pessoas que passam longe do escândalo e de algumas delas do centro do poder, como a ministra Dilma Rousseff, virtual candidata do Governo à sucessão do presidente Lula.

A falta de um controle sobre os passos do delegado deu motivo suficiente para que ele se sentisse, acima de tudo, como um dom Quixote em busca de uma única verdade. Protógenes nega as informações e denuncia a invasão de sua privacidade. Mas, se os fatos forem confirmados, foi ele quem mais extrapolou os limites da lei, bisbilhotando aonde não devia, sobretudo por razões de legalidade. Todo cidadão, salvo expressa ordem judicial, tem direito à privacidade.

Há quem queira dizer que brigas no andar de cima costumam envolver quem está dentro e quem está fora do circo, mas é importante que qualquer investigação tenha início, meio e fim, não podendo ser, como as evidências apontam, uma rajada de metralhadora sem um alvo definido. O delegado fez um arrastão, sob o argumento de que agia em nome do presidente, numa atitude que pode até comprometer biografias. A vida pessoal da ministra, por exemplo, é de única e exclusiva responsabilidade dela, não sendo de interesse coletivo. Por que, então, buscar detalhes pessoais?

O Congresso Nacional, que tem em curso uma comissão parlamentar de inquérito que apura a extensão dos grampos, tem a obrigação de entrar no caso para saber o que, de fato, o delegado andou fazendo, mas, sobretudo, quem lhe deu a ordem, pois é certo que, por mais insano que possa ser, ele não foi tão longe de moto própria. Mesmo que a investigação tenha saído de controle, ele andou mais por ter garantias de cima de que não haveria problemas.

Um país democrático exige transparência nas ações públicas, mas não pode haver um clima de delação ou de "big brother", no qual todos passam a ser virtualmente culpados. A "Operação Satiagraha", em si, cumpriu sua meta, mas os passos de Protógenes Queiroz foram bem além desse campo minado do banqueiro Daniel Dantas.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

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