sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cultura do desperdício




Em números de hoje, cerca de 1 bilhão de pessoas passa fome no mundo de acordo com dados de organizações internacionais, como a própria ONU; e a situação, se nada for feito, tende a piorar com o agravante da escassez de água, que já afeta alguns continentes. Em razão disso, são cada vez mais importantes os eventos como o Fórum de Davos, na Suíça, e o Fórum Social Mundial, em Belém do Pará. Um dos temas para reflexão envolve a crise do sistema alimentar mundial, que atinge diversos países desde o ano passado. Ontem, foi realizada a Conferência Internacional Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Diversas demandas, que preocupam a humanidade, são resultado da desmobilização do próprio homem. Hoje, quando a natureza reage com calor no inverno, frio no verão, chuvas torrenciais e secas intermináveis, não se pode repassar a culpa quando vários alertas sobre o comportamento ambiental foram dados. Nos EUA, só agora, sob nova direção, o Governo admite aceitar o Tratado de Kyoto, que reduz a emissão de gases. O presidente Barack Obama foi além ao reduzir o prazo para as montadoras implantarem tecnologias nos carros que reduzam a poluição e o consumo de combustíveis.

Mas foi preciso mudar o presidente e ampliar a conscientização de que o problema é coletivo. A fome e a escassez de água vão pelo mesmo caminho. Quando alguém tenta fazer campanhas contra o desperdício, dificilmente encontra eco na sociedade. O brasileiro, sobretudo, tem uma cultura de desperdício que deve ser combatida, pois chegará um momento em que não haverá mais tempo para reclamação. O fato de o país ser a caixa d’água do mundo, como alguns gostam de dizer, não permite o abuso de consumo e má utilização da água, que aqui serve até para “varrer ruas”.

A alimentação é, talvez, um dos problemas mais cruciais, pois quando se estabelece que 1 bilhão passa fome, há uma grave advertência para os desdobramentos dessa situação. Não há novidades nos fluxos migratórios, pois as vítimas têm, por sobrevivência, que buscar novos lugares. E, aí, amplia-se a intolerância contra os imigrantes. Os países do primeiro mundo e os emergentes têm que se conscientizar da importância de investimentos nas regiões mais pobres, para garantir a sobrevivência de suas populações e mantê-las fixas no local de origem, pois ganham todos.

Só que, pelo menos até hoje, as nações mais ricas não conseguiram desviar o olhar do próprio umbigo, cuidando apenas de suas demandas. Hoje, mais do que nunca, quando a globalização é irreversível, os problemas também são.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009


Jogo de interesses

As eleições das mesas diretoras da Câmara Federal e do Senado têm revelado um lado perverso da política: o jogo de interesses que se estabelece nos bastidores, gerando um pantanal de negociatas, ou melhor, como lembrou o senador, por Minas, Wellington Salgado, “um clima tão pesado que não se consegue vender a alma ao Diabo, porque tem gente oferecendo de graça”. Nos discursos, é possível pinçar outras frases como “estão prometendo até terreno na lua para ganhar voto”. A eleição está marcada para segunda-feira, dia 2 de fevereiro, quando o Congresso abre os trabalhos de 2009.

A imagem que se tem dos deputados e senadores fica comprometida por tais práticas, embora nem essas devam surpreender o leitor mais atento. A Mesa Diretora é estratégica para o parlamento e para o Governo, demandando, pois, uma série de negociações para sua formação. O ex-presidente José Sarney mudou o jogo, criando uma fissura nas relações entre o PMDB e o Partido dos Trabalhadores, já que, em princípio, os dois tinham feito um acordo pelo qual cada um comandava uma das casas.

Como em política tudo muda, como bem lembrava o ex-governador Magalhães Pinto, as próximas horas serão decisivas, já que os atores políticos jogam todas as fichas. O presidente Lula, estrategicamente, se mantém distante, seguindo uma velha máxima de que não deve se meter em discussão alheia, mesmo sendo parte interessada no seu desfecho. Está tranquilo, pois tanto o petista Tião Viana quanto o peemedebista José Sarney são seus aliados. Daí, é melhor sair da linha de tiro.

O que se tira como lição é a equiparação de interesses. Se havia alguma impressão de que nas instâncias superiores as articulações tinham um mínimo de civilidade - boa parte dos senadores já exerceu cargos de governador -, ela se desfez. A busca do poder revela caráter e até desfaz parcerias. Mas em política há um dado diferente. Depois de tudo, a máquina continua andando à espera de um novo embate.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Opção pelo diálogo


Opção pelo diálogo

O que menos se espera - num momento de crise internacional, com reflexos em todas as frentes - é que os atores da geração de empregos, o Governo e os trabalhadores se envolvam num bate-boca ineficaz, fruto apenas de emoções, como foi visto no curso da semana, quando o ministro do Trabalho, Carlos Luppi, ameaçou as empresas que estão demitindo com o corte de subsídios, e teve o troco do presidente da Fiesp, Paulo Skaff, que cobrou a lista das ditas empresas que estariam sendo salvas pelo dinheiro oficial.

Conhecedor do assunto como poucos, pois foi na militância sindical que ganhou notoriedade, o presidente Lula já avisou que vai assumir as discussões, desautorizando o ministro. De fato, o momento não é para atitudes forjadas na emoção, já que todos estão no mesmo barco. As empresas não demitem pelo simples desejo, e sim pelas circunstâncias econômicas que ampliam as dificuldades, ao mesmo tempo em que os trabalhadores não podem pagar a conta se há a possibilidade de outras alternativas.

A partir de segunda-feira, como prevê o Governo, começarão negociações intensas para reduzir o calor dos debates e colocar todos à mesma mesa para buscar saídas. E é assim que deve ser. O jogo de palavras, que às vezes soa bem para a arquibancada, pode ser fonte de problemas, sobretudo num cenário em que todos têm suas razões. Há quem aponte que a elevação da temperatura é apenas para marcar posição. Pode até ser, mas, a partir daí, é fundamental que as ações sejam pautadas no bom senso por ser o único caminho para a racionalidade.

Há uma crise para discutir, restando, pois, a mesa de negociações como melhor espaço. O ministro do Trabalho pode até ter um lado, mas, no atual quadro, cabe ao Governo, em vez de esticar a corda, fazer o papel de mediador, se possível, com a capacidade de apresentar um novo caminho. Não há vencedores nesse confronto.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado




segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


É bom esclarecer

Numa reunião fechada de pesos-pesados da economia, na última quarta-feira, no Rio

de Janeiro, como revelou o jornal “O Globo”, o empresário Emílio Odebrecht, que

lidera o grupo ao qual empresta o nome, teria proposto um mandato presidencial

maior para enfrentar a crise, que necessita de medidas duras. O discurso foi

interpretado como a defesa de um novo mandato para o presidente Lula. Em princípio,

não. Ao dizer mandato presidencial maior, ele ficou mais próximo de um ciclo de cinco

anos do que de uma nova reeleição, mas é bom esclarecer.

No meio de uma crise sem precedentes, que afeta, indistintamente, todos os

segmentos, não dá para discutir o tempo de mandato do chefe do Executivo e, muito

menos, se vale, ou não, a pena mudar as atuais regras. Há outras prioridades, e o

enfrentamento do caos é uma delas. O Governo deve se afastar dessa discussão,

ainda mais quando ela soa, para alguns, como uma tentativa intempestiva.

Os empresários que se reuniram no Rio devem, sim, avaliar as medidas tomadas nos

últimos dias, como a cessão ao BNDES, pelo Tesouro Nacional, de R$ 100 bilhões

para socorrer empresas, a começar pela Petrobras. A ideia, certamente, é eivada das

melhores intenções, mas será a mais eficiente? O Governo tem que tomar medidas

rápidas, mas é importante que imponha consistência aos seus projetos, a fim de evitar

que o problema esteja apenas sendo jogado para a frente.

As ações oficiais devem ser tomadas sob o olhar interno, para evitar a debacle do

setor produtivo, ficando atentas ao resto do mundo, a começar pelo vizinho Estados

Unidos. Sob nova direção, os americanos estão ansiosos para ver o que o presidente

Barack Obama vai fazer no curto prazo para debelar a crise. Seus passos serão

acompanhados por outras economias, uma vez que o problema, independentemente da

cultura de cada país, foi endêmico, afetando a todos.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009


Cedo para mudar

O jornalista Kennedy Alencar, articulista da “Folha de São Paulo”, disse, em sua coluna, que o presidente Lula teria desistido do projeto de fim da reeleição, que seria substituído por um mandato de cinco anos. Pelo sim, pelo não, trata-se de uma questão que ainda carece de confirmação, apesar da competência da fonte. O jogo de poder tem suas nuanças e, por várias vezes, elaborou propostas apenas para aferir a reação da opinião pública. Pode ser esse o caso.

No entanto, já é tempo de se colocar em questão diversas demandas que a sociedade civil considera defasadas. A reeleição, que já passou por dois presidentes - Fernando Henrique e Lula -, ainda precisa de mais tempo para ser considerada uma peça vencida. Ao contrário, seus resultados, a despeito das críticas, são positivos, pois revelam a opção do eleitor por experiências que têm dado certo. É fato que a máquina oficial é um grande indutor eleitoral, mas ficou claro que, em casos de incompetência, o cidadão não se intimidou e mudou o comando.

A reeleição não carece de mudanças, em razão de seus resultados e do tempo de vigência. O país não pode passar por experiências contínuas, sobretudo quando se trata de casos em que o saldo é positivo. O que pode ser feito é ampliar a restrição para conter abusos. Aí, sim, é que reside o grande problema do jogo eleitoral. O trânsito excessivo de recursos tem tirado do páreo lideranças importantes, e só uma mudança nas regras de financiamento será capaz de minimizar tal impacto.

O financiamento público, que também tem suas restrições, é uma questão que merece ser avaliada com mais consistência, pois, até hoje, críticos e defensores apresentaram propostas rasas para a sua implantação. A legislação brasileira tem diversos pontos de sombra que precisam ser reparados, mas a reeleição não é um deles. Ademais, o mandato de cinco anos, sem reeleição, não é uma novidade. Quando tomou posse, o então presidente José Sarney conseguiu mais um ano de mandato, mas nem por isso livrou o país do flagelo da inflação. Saiu desgastado e com índices mensais de 80%.

Paradoxalmente, a solução veio de uma administração de apenas dois anos. Foi no Governo de Itamar Franco que ocorreu a implantação do Plano Real.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Com os pés no chão


  • O presidente Lula, que no início da crise global anunciou que o Brasil seria afetado
    apenas por uma marolinha, dá mostras, agora, de que age com os pés no chão.
    Durante visita à feira Couromoda, em São Paulo, disse que o Governo adotará todas
    as medidas necessárias para diminuir os efeitos do impasse econômico, e admitiu que
    alguns ajustes imediatos - mesmo sem apontá-los - precisam ser feitos. Melhor assim,
    pois seria ingenuidade dele, e de quem aposta nesse sentido, achar que o pior já
    passou. Não é à toa, por exemplo, que a Alemanha anunciou, ontem, um investimento
    de 50 bilhões de euros na sua economia para evitar o pior.

    É fato que ninguém sabe o que vem pela frente, como também não se sabia o que iria
    ocorrer no mercado global até meados do ano passado. Salvo alguns avisos, a maioria
    dos especialistas apostava nos papéis em detrimento da produção, pois era muito mais
    negócio. A lucratividade não tinha limites e o descontrole era total. Deu no que deu.
    Por isso, como não se sabe quando esse cenário de incertezas vai acabar, o melhor a
    fazer é tomar providências para garantir, pelo menos, uma passagem mais tranquila
    por esse mar revolto.

    A mudança de posto nos Estados Unidos será importante para definir os rumos do
    mundo. O presidente Barack Obama tem anunciado que vai investir forte para
    retomar o crescimento e garantir a estabilidade da economia. Se for bem sucedido,
    todos ganham, pois foi lá que tudo começou, quando as carteiras dos bancos
    aceitavam todo tipo de cliente em busca de um imóvel sem, sequer, avaliar sua
    capacidade financeira.

    O ano, que está apenas começando, será um grande teste para as lideranças, e no
    Brasil não será diferente, pois todas as instâncias de poder estão sendo desafiadas a
    tomar medidas criativas. União, estados e municípios, mais do que o dever de casa,
    têm que tomar providências para garantir que a crise pode ser revertida. Afinal, como
    diz o presidente Lula, é uma boa hora para se tirar algum proveito.

    Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Invasão de privacidade




  • A internet é uma das ferramentas mais importantes dos últimos anos, pois reduziu o
    tamanho do mundo, estreitou relações e trouxe a informação para o tempo real. O
    que ocorre em qualquer parte do mundo é repartido por todos os cantos, bastando
    apenas um computador. Há algum tempo, para não ir muito longe, a geração de fotos
    para os jornais levava horas; se coloridas, mais tempo ainda. Hoje, ao simples click, é
    possível remetê-la para qualquer endereço, em qualquer parte do planeta. Fantástico!
    Mas, só para confirmar a regra, há o outro lado da moeda. A internet é recheada de
    lixo, seja na informação, pois nem sempre é possível aferir a autenticidade, seja nos
    relacionamentos. Alguns sites são de puro risco. Este outro lado da moeda está no
    interessante Orkut. De fato, tem aspectos positivos, pois permite a troca de
    informalidade entre pessoas, gerando conversas de todos os níveis, facilitando a
    integração, mas é lá também que estão abrigados os invasores de privacidade, os
    pedófilos e outros tantos que são despojados de qualquer escrúpulo
    A invasão da privacidade, em tais situações, é pedagógica, pois as crianças e os
    adolescentes são presas fáceis para esses predadores da rede, que ficam impunes
    em função da dificuldade de encontrá-los. A internet ainda não tem disponíveis, para
    todos, os mecanismos que permitem a identificação de tais pessoas. Por uma série de
    fatores, a legislação é específica de cada país. No caso brasileiro, só agora a Justiça
    se ajusta aos novos tempos e cria leis específicas e equipa suas delegacias para a
    realidade.
    Mas o caminho é longo, o que repassa, de pronto, para a família, a instituição de
    diálogo e de controle, a responsabilidade do que os filhos estão fazendo. O melhor
    passo é educá-los para as armadilhas que são utilizadas pelos incautos. A simples
    repressão não funciona, sendo a educação o melhor caminho para garantir o bom uso
    de uma ferramenta que veio para ficar.
    Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado