terça-feira, 7 de setembro de 2010

Política ou polícia?


Em entrevista ao jornal “O Globo”, o candidato à Presidência pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, denunciou o que ele chama de despolitização da campanha. Tem razão, o viés ideológico tem passado longe dos palanques, ora ocupados por denúncias em torno do vazamento de dados da Receita. A disputa pela sucessão de Lula está mais para a delegacia de polícia do que para a política. Trata-se de uma perda preocupante de qualidade, pois o eleitor se afasta dos temas importantes, ficando apenas na arquibancada à espera de uma conclusão das investigações.

O surgimento de mais uma denúncia, agora com um servidor da Receita Federal de Minas Gerais acusado de acessar dez vezes os dados pessoais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, na delegacia da Receita em Formiga, aumenta a temperatura, sobretudo por ser filiado ao Partido dos Trabalhadores. Ele causa constrangimentos à legenda do presidente da República e aguça ainda mais a articulação da oposição para politizar o tema.

As investigações devem ir até o fim, e rápido, mas é necessário retomar a discussão sobre o país. Falta menos de um mês para a eleição e ainda não é possível identificar a postura dos candidatos sobre questões relevantes como reforma política, reforma tributária e o gargalo da Previdência Social. Os candidatos, hoje, estão apenas num jogo de ataque e defesa sem entrar no mérito do que é, de fato, necessário.

Como uma questão não elimina a outra, isto é, investigar e punir é um dever de Estado, e discutir as demandas é outro ponto importante, a conciliação das duas agendas deixará o eleitor mais confortável, pois terá meios de definir o seu voto às claras, sem o risco de ir à deriva para as urnas.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A invasão de dados


É certo que o episódio vai para os palanques como estratégia política da oposição, sobretudo na fase mais aguda da campanha, quando os números dos institutos de pesquisa dão ampla vantagem à candidata do Governo, mas a quebra de sigilo de ex-dirigentes tucanos e até da apresentadora Ana Maria Braga, como revelam os portais e agências, não pode passar em branco como se fosse um mero erro de trabalho. A Receita, para o seu próprio bem, tem que levar as investigações, já em curso, até o último ponto, a fim de resguardar sua imagem e, sobretudo, garantir um direito previsto na Constituição: o sigilo fiscal.

Sem entrar no mérito da causa, pois seria fazer parte do jogo eleitoral, é possível discutir o problema sob o olhar da indignação, pois atos dessa natureza, se não forem punidos com rigor, podem ser a gênese de ações mais graves, o que é inadmissível num país que, a duras penas, conquistou a sua democracia. Em qualquer tempo e em qualquer Governo comprometido com o povo, não há espaço para tal prática, pois seria endossar ações dos tempos de exceção.

Atitudes como essas, além de contrariar princípios legais consolidados em códigos e na Constituição, ferem, ainda, a discussão ética que se cobra do Estado. Como gestor de demandas de todos os cidadãos, até ele tem suas limitações, e essa é uma delas. Bisbilhotar dados é possível só quando o titular permite ou quando a própria Lei define tal possibilidade, como é prerrogativa, devidamente motivada e autorizada, dos próprios auditores.




domingo, 22 de agosto de 2010

Quanto mais demorar...pior



Ontem à tarde, tão logo o Batalhão de Operações Especiais (Bope) terminou o trabalho de saneamento num hotel da Zona Sul do Rio, invadido por bandidos em fuga - dez foram presos e todos os reféns liberados -, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, emitiu nota oficial exaltando a ação dos policiais. No mesmo texto, ele garantiu que em breve os moradores da região, sobretudo da Rocinha, a maior favela da cidade, estarão livres dos traficantes.

Certamente se referia às ações pacificadoras desenvolvidas na cidade, que já livraram diversas regiões do controle dos criminosos. Não definiu prazos, mas deixou claro que até 2014, quando o país receberá a Copa do Mundo, a situação será outra. No entanto, a comunidade, a despeito de uma percepção distinta dos de fora - os visitantes têm mais medo do que os locais - está cansada de ficar refém da violência e não gostaria de esperar tanto tempo.

A segurança pública ainda não foi alvo de uma discussão consistente pelos candidatos à Presidência da República e, muito menos, dos que vão postular o comando dos estados. Prendem-se mais ao discurso do “Vou fazer isso”, “Vou fazer aquilo”, quando se trata de uma velha demanda que já deveria estar nos programas de Governo. Fala-se apenas em criar órgãos, quando o problema exige mais do que isso.

Em 2014, com a Copa do Mundo, e em 2016, com os Jogos Olímpicos, o país, especialmente o Rio de Janeiro, estará exposto ao olhar internacional, mas não dá para esperar tanto tempo quando a guerra urbana já está deflagrada. Quanto mais a demora, mais difícil será a solução.



sábado, 21 de agosto de 2010

Internet e voto: treino


O uso da internet e das redes sociais na campanha é importante, embora seja apenas um treino para os pleitos seguintes

Na última quarta-feira, os candidatos Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva participaram de um inédito debate pela internet, promovido pela Folha de São Paulo e pelo portal Uol, ocasião em que, de novo, voltaram a apresentar suas diferenças sobre como gerenciar o país no ciclo pós-Lula, embora o próprio presidente tenha dito que não pretende vestir o pijama quando terminar o mandato, preferindo um papel ativo na administração caso a vencedora seja a sua candidata in pectore.

Comentário à parte, pois foi uma afirmação mais para a plateia do que real, o importante é considerar que o encontro produziu o contraditório que o eleitor espera, sobretudo por não ter regras tão engessadas quanto às dos confrontos na televisão. Os candidatos tiveram mais visibilidade e se submeteram aos internautas - um avanço no processo eleitoral - num evento em que as dúvidas se apresentaram e foram discutidas.

Tanto os debates virtuais quanto os da televisão são importantes para o esclarecimento do eleitor, da mesma forma que o horário eleitoral. Este, ainda sob questionamento de importantes segmentos, sobretudo da mídia eletrônica em função de sua obrigatoriedade, é um espaço coletivo no qual todos têm oportunidade de se mostrar.

Ainda há mudanças a serem feitas para facilitar a discussão e o acesso popular aos candidatos. A internet, segundo antecipam os especialistas, terá um papel estratégico em 2014 ou até mesmo em 2012. O que ora ocorre é apenas um treinamento. Então, que seja um bom treino.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eleitor não deve querer confronto apenas



Podem ser fatos casuais, mas a semana termina sob o signo do confronto entre líderes e liderados do processo político, com trocas de acusações que passam longe dos temas próprios de campanha. De um lado, o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, diz que o candidato José Serra terá um fim melancólico, com chances de perder a eleição no primeiro turno. Nada demais, por se tratar de um comentário, não fosse o adendo: “ele descambou para a direita raivosa”. Do outro, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, dizendo que o autor das afirmações não merecia crédito.

É certo que em cena está uma discussão ideológica, mas, no fundo, ela serve apenas como argumento para os dois lados fugirem de questões centrais. O fato de a política externa ganhar ênfase no discurso, sobretudo da oposição, aponta que se trata de uma estratégia de desconstrução do adversário, mas aonde entra o interesse coletivo? Salvo ações pontuais, sobretudo quando questionados, os candidatos pouco abordam questões centrais como a economia, saúde, segurança e educação.

Esse tipo de postura não chega, sequer, a ser inédito, pois está claro, há tempos, que a desmitificação do oponente passou a ser a ação preferencial dos marketeiros, mesmo sabendo que a maioria da população passa distante desse tipo de assunto. O eleitor, em vez disso, prefere - acho - olhar para o futuro, preocupado com as suas contas e como ficará sua vida após a mudança de presidente.

Como, depois de oito anos, haverá um novo inquilino no Planalto, o novo cenário causa preocupações, principalmente quando sai de cena - sairá mesmo? - um político com popularidade tão alta. Seja Serra, Dilma ou Marina, para ficar nos mais cotados, haverá sempre uma cobrança para a manutenção do ciclo virtuoso que ora encanta os economistas e coloca a classe média no centro das discussões.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Horário eleitoral




Horário eleitoral define eleição? Certamente não. Mas é necessário ao eleitor utilizar esse espaço - a partir de hoje, até 30 de setembro - para conhecer melhor os candidatos que irão às urnas no pleito de outubro. A despeito de causar incômodos, pois muda a grade de programação das emissoras de rádio e de TV, ele pode ser utilizado de forma criativa, a fim de garantir boa audiência e de servir de espaço para propagação de boas ideias. Ademais, é por meio dele que é possível conhecer boa parte dos candidatos à Câmara e à Assembleia. Nos pleitos gerais, eles têm menor exibição.

O problema da propaganda obrigatória é como chega ao eleitor, em forma de monólogo. O contraditório - quando ocorre - é seccionado pelos próprios programas, apresentados de forma estanque. Um político responde ao outro por mera coincidência no mesmo bloco, ou apenas na edição seguinte, quando o timing da resposta já passou. As discussões ocorrem apenas nos debates, mas até estes, diante de tantas restrições impostas pelos marqueteiros, estão perdendo a eficiência que deles se espera.

Mas já foi pior. No ciclo militar, a Lei Falcão - criada pelo ministro da Justiça Armando Falcão, o do “nada a declarar” - era um arremedo de campanha. Os candidatos eram apresentados por slides, tendo ao fundo a voz de um apresentador que lia seus currículos. Houve avanços no processo democrático, mas ainda há espaço para se discutir a eficiência de tal propaganda, ou até mesmo se ela é necessária.

Pelas atuais regras, o horário eleitoral começa hoje, restando ao eleitor a oportunidade de avaliar conscientemente os discursos que serão apresentados, verificando, sobretudo, se são factíveis ou não. Só assim será possível evitar as armadilhas de campanha.

sábado, 7 de agosto de 2010

Importância dos debates




Uma das primeiras ações dos sites de notícia e dos próprios comitês de campanha, ontem, após o debate entre os candidatos, na TV Bandeirantes, foi aferir a tradicional pergunta: quem ganhou? A despeito de critérios científicos que possam ser adotados, trata-se de uma avaliação de respostas subjetivas, salvo discrepâncias abissais, que não foi o caso. O encontro foi morno, e os candidatos bem-comportados, exceção a Plínio Sampaio, do PSOL. Aos 80 anos, mostrou-se afiado, de bom humor e disposto a quebrar a rotina insossa de tais programas. Conseguiu.

Mas o vencedor, de fato, foi o eleitor, que, mesmo diante de respostas contidas, sobretudo por se tratar de um primeiro encontro, teve a oportunidade de avaliar melhor a posição dos candidatos diante de vários temas. Tais eventos, mesmo sob rígidos critérios das coordenações, ainda são a melhor forma para definição do voto. A TV Globo, detentora da maior audiência nacional, também fará seu debate.

Num ciclo de tecnologia virtual, os tradicionais comícios perderam espaço, ficando apenas na memória da política brasileira em função de suas mobilizações. Paradoxalmente, os maiores, no entanto, não passaram pelo viés da disputa e nem tinham no palanque apenas aliados tradicionais. A volta das eleições diretas foi a causa comum que mobilizou lideranças de várias tendências ideológicas, colocando-as no mesmo palanque em vários pontos do país, notadamente na Candelária, no Rio, e na Praça da Sé, em São Paulo.

Voltando aos debates, a TV e a rádio são hoje os principais canais de mobilização, e não há problema nisso desde que seja dado espaço para o estabelecimento do contraditório. Morno ou não, como advertiu Plínio Sampaio, esse tipo de evento tornou-se um canal de aproximação bem mais em conta do que a propaganda obrigatória na rádio e na televisão. Que ocorram outros.