É certo que o episódio vai para os palanques como estratégia política da oposição, sobretudo na fase mais aguda da campanha, quando os números dos institutos de pesquisa dão ampla vantagem à candidata do Governo, mas a quebra de sigilo de ex-dirigentes tucanos e até da apresentadora Ana Maria Braga, como revelam os portais e agências, não pode passar em branco como se fosse um mero erro de trabalho. A Receita, para o seu próprio bem, tem que levar as investigações, já em curso, até o último ponto, a fim de resguardar sua imagem e, sobretudo, garantir um direito previsto na Constituição: o sigilo fiscal.
Sem entrar no mérito da causa, pois seria fazer parte do jogo eleitoral, é possível discutir o problema sob o olhar da indignação, pois atos dessa natureza, se não forem punidos com rigor, podem ser a gênese de ações mais graves, o que é inadmissível num país que, a duras penas, conquistou a sua democracia. Em qualquer tempo e em qualquer Governo comprometido com o povo, não há espaço para tal prática, pois seria endossar ações dos tempos de exceção.
Atitudes como essas, além de contrariar princípios legais consolidados em códigos e na Constituição, ferem, ainda, a discussão ética que se cobra do Estado. Como gestor de demandas de todos os cidadãos, até ele tem suas limitações, e essa é uma delas. Bisbilhotar dados é possível só quando o titular permite ou quando a própria Lei define tal possibilidade, como é prerrogativa, devidamente motivada e autorizada, dos próprios auditores.

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