quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Com os pés no chão


  • O presidente Lula, que no início da crise global anunciou que o Brasil seria afetado
    apenas por uma marolinha, dá mostras, agora, de que age com os pés no chão.
    Durante visita à feira Couromoda, em São Paulo, disse que o Governo adotará todas
    as medidas necessárias para diminuir os efeitos do impasse econômico, e admitiu que
    alguns ajustes imediatos - mesmo sem apontá-los - precisam ser feitos. Melhor assim,
    pois seria ingenuidade dele, e de quem aposta nesse sentido, achar que o pior já
    passou. Não é à toa, por exemplo, que a Alemanha anunciou, ontem, um investimento
    de 50 bilhões de euros na sua economia para evitar o pior.

    É fato que ninguém sabe o que vem pela frente, como também não se sabia o que iria
    ocorrer no mercado global até meados do ano passado. Salvo alguns avisos, a maioria
    dos especialistas apostava nos papéis em detrimento da produção, pois era muito mais
    negócio. A lucratividade não tinha limites e o descontrole era total. Deu no que deu.
    Por isso, como não se sabe quando esse cenário de incertezas vai acabar, o melhor a
    fazer é tomar providências para garantir, pelo menos, uma passagem mais tranquila
    por esse mar revolto.

    A mudança de posto nos Estados Unidos será importante para definir os rumos do
    mundo. O presidente Barack Obama tem anunciado que vai investir forte para
    retomar o crescimento e garantir a estabilidade da economia. Se for bem sucedido,
    todos ganham, pois foi lá que tudo começou, quando as carteiras dos bancos
    aceitavam todo tipo de cliente em busca de um imóvel sem, sequer, avaliar sua
    capacidade financeira.

    O ano, que está apenas começando, será um grande teste para as lideranças, e no
    Brasil não será diferente, pois todas as instâncias de poder estão sendo desafiadas a
    tomar medidas criativas. União, estados e municípios, mais do que o dever de casa,
    têm que tomar providências para garantir que a crise pode ser revertida. Afinal, como
    diz o presidente Lula, é uma boa hora para se tirar algum proveito.

    Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Invasão de privacidade




  • A internet é uma das ferramentas mais importantes dos últimos anos, pois reduziu o
    tamanho do mundo, estreitou relações e trouxe a informação para o tempo real. O
    que ocorre em qualquer parte do mundo é repartido por todos os cantos, bastando
    apenas um computador. Há algum tempo, para não ir muito longe, a geração de fotos
    para os jornais levava horas; se coloridas, mais tempo ainda. Hoje, ao simples click, é
    possível remetê-la para qualquer endereço, em qualquer parte do planeta. Fantástico!
    Mas, só para confirmar a regra, há o outro lado da moeda. A internet é recheada de
    lixo, seja na informação, pois nem sempre é possível aferir a autenticidade, seja nos
    relacionamentos. Alguns sites são de puro risco. Este outro lado da moeda está no
    interessante Orkut. De fato, tem aspectos positivos, pois permite a troca de
    informalidade entre pessoas, gerando conversas de todos os níveis, facilitando a
    integração, mas é lá também que estão abrigados os invasores de privacidade, os
    pedófilos e outros tantos que são despojados de qualquer escrúpulo
    A invasão da privacidade, em tais situações, é pedagógica, pois as crianças e os
    adolescentes são presas fáceis para esses predadores da rede, que ficam impunes
    em função da dificuldade de encontrá-los. A internet ainda não tem disponíveis, para
    todos, os mecanismos que permitem a identificação de tais pessoas. Por uma série de
    fatores, a legislação é específica de cada país. No caso brasileiro, só agora a Justiça
    se ajusta aos novos tempos e cria leis específicas e equipa suas delegacias para a
    realidade.
    Mas o caminho é longo, o que repassa, de pronto, para a família, a instituição de
    diálogo e de controle, a responsabilidade do que os filhos estão fazendo. O melhor
    passo é educá-los para as armadilhas que são utilizadas pelos incautos. A simples
    repressão não funciona, sendo a educação o melhor caminho para garantir o bom uso
    de uma ferramenta que veio para ficar.
    Editou: M. J. Ranieri, jornalista aposentado

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Incentivo ao consumo


O sucesso das medidas só o tempo dirá, mas não deixa de ser positivo o comportamento do Governo que na última quinta-feira anunciou um elenco de ações para enfrentar a crise econômica. Reduzir impostos para o setor automobilístico, especialmente o de carros populares, é importante, pois se trata de um mercado que vinha aquecido ao longo dos anos e, de repente, se defrontou com uma forte desaceleração. A pisada no freio pode ter sido vital para as montadoras, mas o mercado se ressentiu, pois o capital deixou de girar e o consumidor se viu brecado nas suas pretensões de compra diante das novas taxas e prazos.
Os governos nacionais têm dito aos seus cidadãos para continuarem consumindo. Foi assim nos Estados Unidos - fonte geradora de todo o impasse econômico - e no Brasil, onde o presidente Lula, ressalve-se, não é de hoje, vem dizendo que o povo tem que manter a postura de antes. Por isso, também foi positiva a criação de novas faixas de Imposto de Renda, pois a economia gerada se reflete, certamente, no giro do dinheiro.
Mas, como bem advertem alguns economistas, é importante manter a política de investimento, pois é a principal fonte de sucesso da economia brasileira. Os programas criados para incrementá-la são importantes, pois têm efeito multiplicador, ainda mais agora quando as atenções, finalmente, se voltam para o setor produtivo. As fontes que geram emprego e renda devem merecer tratamento especial do Governo, pois, a partir de agora, serão os principais pilares da economia.
Até o calote de 2008, quando se acordou para a nova realidade, era o mercado quem dava as cartas, privilegiando-se a especulação. Era o tipo de crise anunciada, mas foi preciso afetar a principal economia do planeta para ser levada a sério. Hoje, quando todos se ressentem de não terem observado os primeiros sinais, é importante que as medidas sejam pautadas em segmentos que investem na produção. Só assim será possível, sobretudo nos três primeiros meses de 2009, enfrentar o pique da turbulência que ainda está para chegar.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista

sábado, 13 de dezembro de 2008

PASSO ATRÁS


Há quarenta anos, depois de um dia tenso e de amplas reuniões, o país dava um passo atrás. Daria outros, como em abril de 1977, quando o Congresso foi fechado, criada a figura do senador biônico e o Judiciário pagou a conta. Mas, em 13 de dezembro de 1968, foi implantado o AI-5, que restringiu direitos e deu ao Governo poder de cassar mandatos sem qualquer motivação. Era o início de um ciclo de trevas que só acabaria no final dos anos 70 com a revogação da medida.


Ao curso da semana, diversas matérias tocaram no assunto, algumas delas lembrando - e com razão - que os civis também tiveram grande responsabilidade no Ato Institucional assinado pelo general Arthur da Costa e Silva, mas é preciso olhar para frente. O passado deve servir de aprendizado para as novas gerações, a fim de reforçar, sempre, que o poder da força não condiz com as ações democráticas. O que ocorreu naquele distante 13 de dezembro ainda repercute até hoje, pois a partir daquele momento várias biografias foram comprometidas.


Não há nada a celebrar, mas o olhar para o futuro deve estar escudado em princípios que apontem para conceitos éticos e de justiça que devem marcar especialmente a vida pública. O Brasil tem desafios imensuráveis pela frente e garantir suas instituições é um deles, uma vez que ainda há os que pensam no ciclo da força como saída para enfrentar problemas. Na verdade, é a transparência e a ordem democrática que respaldam o combate aos ilícitos, à corrupção e, sobretudo, à injustiça.


O mundo é outro e o país mudou, mas é sempre necessário lembrar que a democracia se faz no dia-a-dia, com ações éticas, distantes de alguns impasses que ainda marcam a vida nacional, sobretudo no campo ético. Ainda há - e não são poucos - os que fazem da vida pública um instrumento de promoção pessoal, que se envolvem em corrupção por achar que a coisa, por ser pública, não tem dono. Ledo equívoco. A “res publica” indica, exatamente, o contrário: é de todos impessoalmente.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

sábado, 6 de dezembro de 2008

TUDO COMO ANTES


O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados deu clara demonstração de que as lições de 2005 não surtiram nenhum efeito no seu modo de operar. Há três anos, quando ocorreu o escândalo do mensalão, o volume de provas não foi suficiente para garantir a cassação do mandato de notórios infratores do decoro parlamentar, gerando um incômodo na opinião pública. Na ocasião, o que prevaleceu foi o espírito de corpo, ficando a degola, paradoxalmente, apenas para os dois principais atores. O que acusou: o deputado Roberto Jefferson, e o principal acusado, o então ministro José Dirceu. Os demais, ou passaram ilesos ou renunciaram ao mandato com direito a retorno no próximo pleito.
Na última quarta-feira, por 10 votos a 4, esse mesmo conselho absolveu o deputado Paulo Pereira, presidente da poderosa Força Sindical, acusado de ter quebrado o decoro por envolvimento em atos suspeitos com o BNDE. O parlamentar, que trocou a sessão por uma passeata dos sindicalistas, argumenta que era vítima de uma armação. Agora, fica mais forte e deve assumir a liderança do PDT no ano que vem se assim o desejar. O elenco de provas, também consideradas robustas, vai para o limbo, pois não há qualquer indício de o plenário da Casa levar o caso adiante.
O eleitor, de novo, se sente impotente para acompanhar o modo de trabalho dos políticos, pois não havia nenhum motivo que justificasse a absolvição. Ao contrário, desde o início, a situação do parlamentar era crítica. Quando surgiram as primeiras denúncias, o corregedor da Câmara, Inocêncio de Oliveira, dispensou novas investigações e encaminhou o caso direto para o conselho. O relator, também com o mesmo ponto de vista, pediu a cassação. Só foi acompanhado por outros três parlamentares.
O corporativismo tem sido uma marca da política, o que, de pronto, exige uma discussão sobre os ritos de punição adotados em todas as instâncias de poder. Além de prazos e mais prazos, o voto final nem sempre acompanha a lógica, sendo resultado, sim, de acordos ou de decisões pessoais, forjadas, na maioria das vezes, em relações de afinidades.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sem iluisões


Quando o presidente Lula dizia que a crise mundial iria apenas produzir marolas no Brasil, certamente falava mais para a platéia, a fim de manter a moral da população. Afinal, com todo o arcabouço de informações, mais do que ninguém, ele já sabia que em um mundo globalizado não há oásis econômico. Estão todos no mesmo barco e, por essa razão, devem tomar providências para evitar o pior. É fato que diversas medidas tanto públicas quanto privadas estão sendo implementadas, mas é importante que não haja suposições de que o pior já passou. A despeito do sentimento que sempre marca o fim do ano, é importante ficar atento.


Não se trata, porém, de alarmismo, mas de pé no chão para imunizar o país de frustrações futuras. Houve ocasiões em que se pensava que o que ocorria no exterior não repercutiria abaixo da linha do Equador. Só depois do caos é que se acordava para a realidade. O velho Terceiro Mundo, sobretudo, foi palco de problemas constantes, muitos deles forjados no pólo desenvolvido, que resolvia suas demandas quebrando os menores.


E o Brasil foi uma dessas vítimas. Basta lembrar quando Paul Volcker, então czar da economia americana, aumentou as taxas de juros. Salvou a economia dos EUA, mas fez terra arrasada em outras regiões. Ele, aliás, é um dos principais conselheiros do futuro presidente, Barack Obama, e não se pode descartar que o remédio seja, de novo, amargo.


A sua presença, porém, não significa, de plano, que tudo será como antes, mas como prevenir, até mesmo em economia, sempre foi melhor do que remediar, é vital que não haja surpresas, pois os danos costumam ser maiores. O presidente, é fato, já mudou o discurso e adverte que todos ainda estão dentro do olho do furacão. Melhor assim, pois, sem ilusões, será possível agir com nitidez, na expectativa de que os investimentos ou qualquer outro tipo de atitude devem ser incrementados para se encontrar a luz do fim do túnel.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

VIOLÊNCIA GRATUITA



Entre tantas outras demandas, a sociedade brasileira tem pela frente o desafio de discutir e encontrar solução para a banalização que marca as relações sociais. O principal dano é à própria vida. Mata-se por coisas simples, como se esse fosse um comportamento comum. Na mesma semana em que o país assistiu estupefato ao enterro de uma adolescente de 15 anos, morta por um ex-namorado que não aceitava a separação, um empresário de sucesso levou um tiro na cabeça pela pessoa mais improvável para o crime: seu motorista. Trata-se de um homem de apenas 28 anos, cuja família tinha profundos laços com o patrão. Matou por causa de um empréstimo que não saiu.
Se a cada negativa a violência é o gesto seguinte, há algo a ser consertado, pois mesmo desconhecendo as reais circunstâncias do crime, as declarações do réu-confesso chocam. Como não conseguiu o empréstimo, discutiram, a arma caiu e disparou sozinha. Pode ser um elemento antecipado da linha de defesa, mas desde quando se vai pedir um empréstimo com uma arma em punho?
A banalização da vida não pára aí. A população de Campos dos Goytacazes, no Norte do Rio de Janeiro, ainda não se recuperou do brutal assassinato do padre auxiliar de uma paróquia na periferia da cidade. Ele estava desaparecido desde sexta-feira e seu corpo foi encontrado, com vários tiros, na segunda-feira. Os autores ainda não foram encontrados. Não se sabe a causa, mas pela crueldade, não foi um simples assalto.
Para constatação dos novos tempos, basta acompanhar o noticiário. As emissoras de TV, sobretudo, mudaram o foco de suas programações. Os primeiros blocos - até mesmo nos noticiários mais sisudos - têm sido dedicado ao noticiário policial. A violência, é fato, não resulta do noticiário, e sim outros processos que precisam ser discutidos, mas, quando até mesmo a mídia se rende às ocorrências, é sinal de que é preciso fazer algo.

Editou: M. J. Ranieri, jornalista