quinta-feira, 15 de maio de 2008

GATO POR LEBRE


As pesquisas que fazem a aferição do prestígio dos políticos têm apresentado um resultado recorrente, de baixa de prestígio do grupo. Não há surpresa nesse diagnóstico das ruas ante o comportamento da classe que pouco se move para reverter a situação. Os escândalos começam nas esferas municipais e chegam a Brasília, num cenário que deixa o eleitor preocupado, pois acaba fazendo o julgamento de todos em razão da ação de particulares. E como agir diferente, se os esforços são pífios, não havendo, sequer, uma mobilização para mexer na legislação e punir os envolvidos em ilícitos?


As ruas, sim, estão articuladas, implantando movimentos sistemáticos para mudar as regras do jogo. O Judiciário, vira-e-mexe, acusado pelos parlamentares de ingerir na seara alheia, tenta fazer sua parte. É o caso do TRE fluminense, que está disposto a barrar candidato com ação penal nas costas. Deve esbarrar em recursos, pois é cláusula constitucional que, somente após uma sentença de mérito e esgotadas as apelações, é possível imputar ao réu uma condição de condenado definitivo. Até lá, ele mantém seus direitos, inclusive de ir às ruas para pedir votos.
Trata-se de uma norma em vigor, mas que caduca diante de tantas evidências. Uma passada de olhos pelos jornais de ontem, só para ficar no exemplo, aponta uma série de ocorrências que desvinculam o eleitor de seu candidato. Quando em campanha, todos prometem uma série de coisas e, entre elas, combater a corrupção. Mas não tem sido assim, criando um cenário de cinismo que precisa ser revertido.


A dificuldade está no corporativismo. O Congresso, a quem cabe a missão de mudar a lei, não demonstra interesse em tomar providências no curto prazo, preferindo jogar a discussão para a frente. Em razão disso, repassa a responsabilidade para o eleitor, que nem sempre é capaz de discernir o joio do trigo, acabando, ele próprio, sendo vítima, pois compra gato por lebre na hora de ir às urnas.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

terça-feira, 13 de maio de 2008

JULGAMENTO PRÉVIO


Quando estourou o caso da Escola Base - hoje um exemplo estudado nas faculdades sobre o que não deve ser feito em matéria de jornalismo policial - , um único jornal desconfiou da história e se recusou a dar uma linha sobre o assunto. Quando o caso foi elucidado e a inocência dos donos da escola restou provada, houve quem sugerisse que o hoje extinto Diário Popular recebesse, naquele ano, o Prêmio Esso de jornalismo pela não publicação das matérias.


Tempos depois, o Diário Popular foi vendido para as Organizações Globo e mudou de nome para Diário de S.Paulo. Pelo visto, mudou também de caráter: a primeira página reproduzida acima, da edição de 1º de abril, configura um verdadeiro crime contra o bom jornalismo. Não se trata aqui de defender o pai de Isabella – embora tudo indique que seja ele o culpado pela morte da filha –, mas de constatar que a capa do Diário fere os princípios mais básicos da ética jornalística e da presunção da inocência.


Um cínico pode alegar que tudo que está na manchete do jornal é verdadeiro, o Diário não veiculou informação falsa nem acusou peremptoriamente o pai de Isabella de assassinato. Sim, e provavelmente esta capa passou pelo departamento jurídico do jornal para avaliar se ela poderia ser objeto de processo. A manchete certamente também cumpriu o objetivo de fazer o jornal vender mais. Os responsáveis pela publicação sabem, também, que esta manchete destruiu a reputação do pai de Isabella.


Ainda que no final do julgamento ele seja absolvido, o pai de Isabella já foi condenado pela imprensa.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Declaração de voto


Não sou eleitor no Rio de Janeiro. Moro em Nova Iguaçu. Mas se fosse votaria em Fernando Gabeira.


Este mineiro - como eu - de Juiz de Fora que mora no Rio, é famoso por motivos opostos. Ganhou notoriedade internacional ao participar do seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, época em que militava no grupo de esquerda MR-8. O ex-guerrilheiro voltou do exílio, dez anos depois, e chocou o país novamente ao aparecer na badalada praia carioca de Ipanema com uma tanguinha de crochê lilás, emprestada da irmã. Mas a lista de antagonismos acaba quando Gabeira levanta as bandeiras que vem defendendo nas últimas três décadas: em resumo, vida saudável, respeito ao meio ambiente e a todos os direitos individuais. A defesa insistente da ecologia já fez com que fosse chamado de "veadinho". Sem abalo, ele respondeu: "É coisa de veadinho sim, mas é também de onça, de baleia..."


Enquanto isso, ele vive feliz ao lado das filhas Tâmi e Maya - a última, campeã mundial de surf em ondas gigantes e Outsider premiada em 2007. Gabeira não é esportista, mas deposita nos esportes a esperança de grandes conquistas ecológicas e econômicas. Para ele, esporte é prazer, beleza, saúde e indústria altamente rentável. Sua campanha para a disputa pela prefeitura do Rio, através da coligação PV/PSDB e PPS, será limpa: sem bandeirolas e papelada espalhada pelas ruas, como foi a disputa para governo estadual também do Rio (então, pelo PT), em 1986, quando realizou eventos verdes como o histórico abraço à lagoa Rodrigo de Freitas, na zona Sul da capital.Por estas e outras é que votaria no meu conterrâneo, sem medo de errar.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

domingo, 11 de maio de 2008

Que paga a conta?


Quando implantou o frustrado Plano Cruzado, o então presidente José Sarney conclamou as ruas a agirem como seus fiscais para conter a alta dos preços. Foram momentos históricos, com o povo combatendo os aumentos e até fechando supermercados em nome da nova ordem. Era tudo novidade e nacionalismo. Deu no que deu. O plano foi para água abaixo e o povo ficou a ver navios, com uma inflação que esbarrou nos 80% mensais. Sarney misturou interesses políticos com economia adiando ao máximo suas decisões para tirar proveito do quadro de euforia que se instalou.


Na semana passada, o presidente Lula, que surfa numa inédita onda de prestígio - nunca neste país um presidente teve índices tão altos - utilizou a velha fórmula para chamar os usuários a denunciarem os postos que aumentassem o preço dos combustíveis, já que não havia razão para isso. O aumento imposto pelo Governo, de 10%, só valia para as distribuidoras, sendo proibido o repasse. Esqueceram de dizer, no entanto, que o preço é livre e aumenta quem quiser. É apenas uma questão de mercado. A majoração, portanto, não estava defesa em lei.


O que está em conta, hoje, não é, sequer, o aumento.Diversas cidades fecharam a semana encontrando os postos com álcool escasso. Alguns, sequer, o tinham nas bombas, resultado de uma desculpa esfarrapada das autoridades de que as chuvas quebraram as safras e comprometido o processamento nas refinarias. O único fato relevante é o impacto nos preços que, certamente, começará a ser sentido. Ou alguém tinha a ilusão de que o reajuste autorizado por Brasília não chegaria ao bolso do consumidor?


Em economia de mercado ninguém segura o prejuízo, que, por uma perversa lógica, fica na ponta do consumo. Assim, os novos preços, embora lamentáveis, não são apenas pontuais. Na verdade, seguem a rotina de que alguém tem que pagar a conta. O grave, no entanto, é que esse resultado não ficará restrito ao abastecimento. É possível verificar que outras frentes já se movimentam, como nos alimentos, cujos custos também já refletem o reajuste autorizado pela Petrobras. E a explicação é a mesma: os preços de produção e de transporte subiram, não havendo meios de conter o aumento. A conta, de novo, fica por conta do consumidor.


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

sábado, 10 de maio de 2008

IMPUNIDADE


Volto ao assunto pela gravidade do fato.


Com a absolvição e a soltura de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de planejar a morte da missionária Dorothy Stang em Anapu, não há no Pará nenhuma pessoa apontada como mandante de crime relacionado a conflito agrário que esteja atrás das grades, informa a Agência Folha. É o que mostra levantamento feito pela CPT (Comissão Pastoral da Terra). De 1971 a 2007, de acordo com a entidade, houve 819 mortes em razão de disputas por terra no Estado.
Apenas 92 casos resultaram em processos. Houve 22 julgamentos pelo Tribunal do Júri -nesses, seis mandantes foram condenados. No entanto, não há nenhum deles preso. De acordo com a CPT, dos seis condenados, um está foragido, um morreu por causas naturais, um foi perdoado pela Justiça e dois aguardam novo julgamento em liberdade. O sexto é Bida, que foi absolvido. No primeiro julgamento, ele havia sido condenado a 30 anos de prisão.Entidades de direitos humanos e ambientalistas protestaram ontem contra sua absolvição , noticia o diário O Estado de S. Paulo.


Em Genebra, ativistas de direitos humanos pediram a intervenção da ONU. "Isso é uma loucura", disse Julie de Rivero, da ONG Human Rights Watch, referindo-se à absolvição de Bida.O relator da ONU para assassinatos sumários, Philip Alston, concluiu sua investigação sobre o Brasil. O relatório - ao tive acesso por gentileza de um amigo - ainda não é público, mas conclui que o Judiciário é falho, há corrupção e considera preocupante a ação de pistoleiros na proteção de latifundiários.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista

sexta-feira, 9 de maio de 2008

SER MÃE...


Ser mãe é mais que uma escolha, é uma maneira de ser que engloba outras dimensões da mulher mãe, do seu corpo e da sua espiritualidade. É através do seu cuidado e carinho que continua geradora dos filhos e das filhas por toda a vida. Com elas, cada um dos filhos aprende a ser mãe também de si mesmos, pois é através da aceitação e do perdão das próprias fraquezas que a figura materna se manifesta.


Ser mãe não constitui um acontecimento, mas sim um modo de ser que dura toda uma vida. A partir da concepção, da gestação, da nutrição e do desenvolvimento do embrião e do parto (fenômenos estes apenas biológicos?) se revela a dimensão humana da mulher numa atmosfera de acolhida, de amor, e de um profundo relacionamento com esse novo ser.


Ser mãe é estar ligada ao mistério da vida. É pelo aconchego do colo da mãe que o filho descobre a sua própria existência em termos de bem e de mal, de aceitação ou rejeição, do certo e do errado. Esse ser, gerado e crescido em seu corpo jamais irá desaparecer, pois ela carregou a criança debaixo de seu coração e, mesmo quando nascer continuará ela a carregá-lo em seu coração por toda a vida. Como diz o poeta, “Mãe não morre nunca, ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho” (Carlos Drumond de Andrade).


Editou: M. J. Ranieri, jornalista

quinta-feira, 8 de maio de 2008

CIDADES SEM LEI


O ex-presidente Itamar Franco tem uma frase emblemática para mostrar que Minas é um estado de diversidade. Minas são muitas, enfatiza. Mas se essa observação for projetada para o plano nacional é possível encontrar também vários brasis. Enquanto nas capitais da Região Sudeste, principalmente, a violência urbana é uma rotina, lamentavelmente, sendo incorporada ao dia-a-dia das chamadas grandes cidades, no Norte o cenário é de insegurança em razão dos latifúndios, da luta pela terra e suas riquezas, que em outras partes do país está apenas nos livros de história. E com um agravante: a Justiça tem uma visão distorcida dos fatos e acaba não contemplando os que têm sede de sua proteção. O mais recente episódio foi a absolvição do fazendeiro Vitalmiro de Moura (foto), condenado num primeiro julgamento a 30 anos de prisão, por ser o mandante da morte da freira Dorothy Stang, e, inexplicavelmente, absolvido num segundo júri.


Não se ignora que tais fatos podem ocorrer, sobretudo quando há falhas abissais no processo ou provas cabais que ficaram fora do primeiro julgamento, mas no caso em questão todos os indícios apontam para a pura manipulação dos depoimentos, com um pistoleiro - Rayfran Sales - convenientemente mudando o seu testemunho e o mandante sendo absolvido, com direito a fotos com o V da vitória para a mídia. O assassinato da freira foi um fato abominável sob todos os aspectos, pois ela estava na região cumprindo não apenas um dever religioso, mas também lutando pelos que têm a sede de Justiça.


Esse escárnio tem que ser revisto - dentro dos princípios legais -, a fim de dar garantias aos que lutam diariamente por seu espaço, na região, de que estarão sob a proteção da lei. O Brasil que poucos conhecem ainda vive cenas de faroeste, com o recente enfrentamento entre índios e arrozeiros, que gerou mortes e prisões no Pará, e o controle de terra que induz à violência diária na região. Milhares de pessoas, de acordo com denúncias da Igreja - entre elas padres e bispos - estão juradas de morte, como se os municípios da região fossem cidades sem lei. Serão?


Editou: M. J. Ranieri, jornalista