
Primeiro foi o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), em 2009, então relator do Conselho de Ética da Câmara Federal, dizer que estava se lixando para a opinião pública e que seria reeleito assim mesmo. E foi, a despeito de todos os protestos pelo país afora, quando chutou o balde ao ser entrevistado por uma repórter de televisão. Desta vez, a polêmica está com o sempre polêmico deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao dizer que está se lixando para o Movimento Gay. Ele se referia aos protestos por prática de racismo e homofobia, após ter dito que seus filhos não teriam envolvimento com uma mulher negra ou com um gay. No primeiro caso, disse que não entendeu a pergunta, formulada pela cantora Preta Gil, a quem classifica de promíscua, mas não recuou quanto aos gays, embora diga que não tenha nada contra eles pessoalmente.
Foram declarações duras e perigosas e que devem ser analisadas com acuidade para não se cair no jogo comum de ataque e defesa. O deputado é useiro e vezeiro em comentários que contrariam as ruas, mas nem por isso carece de explicar melhor o que andou dizendo. Mesmo tendo seus preconceitos, o crime se tipifica não pelo pensar, mas no agir. Como dono de um mandato público, deve zelar pelo discurso. Várias entidades anunciaram ontem mesmo que vão recorrer à Justiça e à Corregedoria da Câmara Federal.
Bolsonaro não é um homem isolado em seus pontos de vista. Militar de carreira, tem renovado seus mandatos pela adesão de setores consideráveis da opinião pública, daí a importância de se analisar a questão sob a luz da serenidade para se estabelecer justas razões para condenar o gesto. Racismo e homofobia são demandas que a sociedade tem que analisar sistematicamente, pois estão sendo estabelecidos valores em cima de preconceitos. O fato de ser gay ou negro - duas questões levantadas pelo parlamentar - não pode ser parâmetro de qualificação de quem quer que seja. Quem percorre tal caminho incorre numa falácia que a lógica chama de "argumentum ad hominem", no qual os juízos são feitos não com base no discurso, mas na qualificação do autor.

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