
Num dos trechos de seu poema “No caminho, com Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa observa com precisão um fato que pode ser remetido aos nossos dias: “Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Nos dias que correm, a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror”.
Os grampos telefônicos ilegais, que não pouparam, sequer o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e, muito menos, ministros de Estado - podendo ter ocorrido até mesmo ao presidente Lula - devem ser motivo de dura reação, uma vez que significam um retrocesso num país democrático. A Constituição é clara ao prever a privacidade, e quando gestos desta natureza são praticados impunemente, é como se já tivessem pisado em nosso jardim. Mas, em vez do perigoso silêncio - que implica em conivência -, é preciso protestar e exigir que este mesmo Estado que ora bisbilhota a vida de seus cidadãos puna quem rompeu os limites da legalidade. Caso, contrário, a situação pode se agravar.
O grampo é uma prática de regimes totalitários, nos quais há um absoluto controle sobre tudo e sobre todos. O Brasil custou a sair de um ciclo de exceção e não deve abrir mão da democracia. A escuta ilegal se esgota na sua própria essência. Por ser ilegal, tem que ser rejeitada, pois há de chegar um dia, em que, se nada for feito, todos desconfiarão de todos, criando-se um clima de delação barata, como ocorreu em ditaduras espalhadas pelo mundo afora.
O encontro do presidente da República com o presidente do Supremo deve ser apenas o primeiro ato de muitos que precisam ser tomados, a fim de reverter essa situação. O Estado tem seus interesses, mas se quiser preservá-los, que o faça sob o respaldo da lei. Quando o diálogo de um ministro do Supremo com um senador da República é estampado nas páginas de uma revista, sem que nenhum dos dois tenha revelado, é sinal de que houve um desvio de conduta.
Editou: M. J. Ranieri, jornalista (Reg. MT 2502/1975)

Um comentário:
É incrivel como o ser humano tem tendencias a desvio de conduta, mas com a informatisação do sistema tende a diminuir essa pratica, pois o sistema pega ele no delito.
Abração.
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